A juventude é coisa de gente velha

Da Redação ·
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A sua saudade não é de um tempo, mas de uma pessoa
fonte: Pixabay
A sua saudade não é de um tempo, mas de uma pessoa
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Era segunda-feira, oito e meia da manhã, quando ele acordou sobressaltado com o barulho da vassoura batendo no rodapé de madeira de seu quarto. Sua mãe, agitada como sempre, aproveitando que ele havia acordado “sozinho”, já disse que estava na hora de se levantar. O menino de oito ou talvez nove anos, ainda tonto de sono, levantou-se – ainda que seu corpo não entendesse o que estava acontecendo. Depois de ir ao banheiro, pegou uma grande feta de pão caseiro recém assado, no meio de uma fornada. Passou margarina, que derretia aos poucos no pão ainda quente. Um copo de café com leite completava a grande refeição do dia. Sentado em frente a TV de tubo, em que qualquer troca de canal era um pequeno exercício, assistiu desenhos animados e torceu para que o tempo passasse devagar.

Após alguns afazeres, entre tarefas de casa e tarefas da casa, almoçou e foi para a escola. No caminho, o Bar do Seu Paulo, onde com apenas uma moeda, era capaz de comprar balas, chicletes, uma paçoca, uma teta de nega e, por mais vinte e cinco centavos, uma tubaína no saquinho. Mesmo que as aulas parecessem difíceis naquele momento, no fundo ele sabia que essa era uma fase gostosa de sua vida. Aos oito ou nove anos de idade, ele já sabia o que era o amor, pelo menos achava que sim. A primeira, se chamava Talita, mas o seu plano de fazer um cartão de Natal e cantar “Cidade Negra” em cima da mesa, não foram suficientes.

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Depois teve a Amanda, que ele aprendeu que significava “digna de ser amada”, mas também não passou de um monte de balas dadas à toa. Ágata, Luana, Janaína... Parece que ele queria realmente encontrar alguém que ele pudesse escrever histórias como as dos filmes que assistia na Sessão da Tarde – ainda que esses filmes fossem inapropriados para sua idade. Ele aprendeu a amar os filmes e assistir TV com a sua vó, que na mesma sala que ele agora via TV sozinho, ela fora velada. Que coisa bizarra as pessoas faziam em velar seus mortos dentro de casa, mas com oito ou nove anos, ele brincou mais tempo lá fora do que acompanhou o velório. Talvez se arrependa de não ter ficado mais um pouquinho ao lado dela, até porque naquela noite, depois de tudo que passou, não a tinha mais no mesmo quarto para dividir o espaço e dar a sua benção de boa noite.

A Escolinha do Professor Raimundo era o momento dele com a vovó, chegava em casa correndo depois da escola, outra feta de pão e mais um copo de café, do que ficava gelado embaixo da pia lhe esperando. Ele sabia, que só chamava o pedaço de pão de “feta”, porque era assim que ela falava. Em 1996, a Escolinha do Professor Raimundo perdeu completamente a graça. Ele tinha oito anos, não nove.

Anos depois, já no Ensino Médio, a Malhação era o seu programa de fim de tarde, ainda buscava amores que pudessem ocupar seus sonhos, mas sentia falta de uma companhia que pudesse reclamar de como os jovens daquela novelinha agiam. A juventude veio e passou. Primeiro a Malhação perdeu a graça, depois acabou. Ele também já não tinha mais o período da tarde livre como antes. Acho que ele nunca mais teve tempo livre.

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O saudosismo o fez acreditar que quando era jovem tudo era melhor e mais feliz, mas a realidade é que tudo era igual. Uma feta de pão e um copo de café em uma manhã qualquer ainda o fazem se sentir especial. Ele ainda sente saudade de assistir a Escolinha com ela, mas aprendeu a assistir “The Big Bang” com outra e desenhos animados voltaram a cena. Ele não bate a vassoura no rodapé, mas diz a hora de levantar-se. A sua saudade não é de um tempo, mas de uma pessoa - daquele menininho que entendia que podia ter tudo, com umas poucas moedas, um pão com margarina, um copo de café e a companhia certa. Quando foi que o pão virou francês e o Bar do Seu Paulo fechou? Quando foi que tudo mudou tanto assim? Talvez ele tenha faltado nesse dia, mas para onde ele foi?

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