Recentemente li um artigo na revista Super Interessante, sobre o “fim da web”, e me levou a algumas reflexões. Durante anos, a internet foi construída sobre um gesto simples: clicar em um link. Ele nos levava a outros textos, ideias, fontes e visões de mundo. Navegar era explorar. Comparar fazia parte do processo. Aprender exigia percurso. Esse modelo ajudou a formar gerações mais curiosas, mais críticas e, de certo modo, mais conscientes de que o conhecimento nunca estava em um único lugar.
Esse desenho, no entanto, vem se dissolvendo. Cada vez mais, nossa experiência digital é mediada por respostas prontas, resumos automáticos e feeds fechados. Não seguimos caminhos, aceitamos entregas. A lógica do link aberto cede espaço à lógica da resposta única, rápida, confortável e, muitas vezes, incontestável. O tempo economizado parece um ganho, mas o preço pago é menos visível: menos comparação, menos dúvida e menos contexto.
A pergunta central deixa de ser se a internet acabou e passa a ser se estamos deixando de escolher. Ferramentas baseadas em inteligência artificial, plataformas fechadas e ambientes proprietários estão redesenhando nossa relação com a informação. Elas reduzem fricção, simplificam decisões e prometem eficiência. Ao mesmo tempo, escondem o processo. Já não vemos com clareza as fontes, os conflitos ou as alternativas. Recebemos conclusões sem travessia, respostas sem narrativa e opiniões sem debate.
Isso altera profundamente a forma como aprendemos, empreendemos e tomamos decisões. Na inovação, o valor raramente está apenas na resposta final, mas no caminho até ela. É na comparação, na experimentação e até no erro que surgem novas ideias. Quando o sistema responde por nós, o risco é substituir pensamento crítico por conveniência cognitiva, criatividade por atalhos e autonomia por dependência.
No mundo do trabalho, essa mudança aparece em decisões cada vez mais automatizadas e menos questionadas. No consumo, em bolhas informacionais confortáveis que reforçam preferências e reduzem o contato com o diferente. Na educação, em alunos que recebem respostas antes mesmo de aprender a formular boas perguntas. Aos poucos, vamos treinando menos o raciocínio e mais a aceitação.
O chamado “fim do link” não é um problema técnico, é cultural. Representa a transição de uma internet que estimulava curiosidade para outra que recompensa passividade. De um espaço de descoberta para um ambiente de entrega contínua. Não entramos mais na internet para explorar, mas para confirmar o que já pensamos ou receber o que alguém decidiu que veríamos.
O desafio não está em rejeitar a tecnologia, isso seria ingênuo. Está em reaprender a perguntar, desconfiar de respostas fáceis e criar espaços onde o processo seja tão valorizado quanto o resultado. Sociedades inovadoras não são aquelas que acumulam mais respostas, mas as que constroem melhores perguntas. Talvez o verdadeiro teste da nossa maturidade digital seja simples: quando tudo nos entrega respostas prontas, ainda sabemos para onde queremos clicar?