Blog do Guilherme Bomba

Homenagens ou tiros no Paraná? 15 de outubro X 29 de abril

Que possamos hoje refletir sobre o real papel dos professores na vida de nossos jovens

Da Redação ·
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Imagem ilustrativa da notícia Homenagens ou tiros no Paraná? 15 de outubro X 29 de abril
fonte: Arquivo Pessoal

 Começo dizendo aos caros leitores e leitoras, que adoro o Dia dos Professores, o já consagrado 15 de outubro, um momento em que nós professores recebemos muitas manifestações de carinho e, até mesmo, mimos dos colégios e de alunos. Contudo, não posso negar a estranheza de perceber que ao longo do ano a coisa, às vezes, é bem diferente. Por mais que, na minha experiência pessoal eu tenha a sorte de ter mais boas experiências, as ruins estão por aí e muitos colegas as vivem muito mais intensamente.

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Sobre o 15 de outubro, vale ressaltar que é comemorado com base em uma lei decretada por D. Pedro I, em 1827. Naquele dia, um marco da educação no Brasil foi traçado, pois a Lei Geral relativa ao Ensino Elementar regulamentava questões relacionadas ao ensino no país. Essa lei estabelecia orientações normativas sobre currículos, salários e obrigações dos professores, além de descentralizar a responsabilidade aos estados – à época províncias -, cidades e vilas. Um grande avanço também para a época, foi a determinação de que professores e professoras teriam o mesmo salário. Apesar de seu caráter inovador, foram apenas promessas que não fiscalizadas, nunca passaram disso.

Cento e vinte anos depois, em 1947, o professor Salomão Becker, educador da rede estadual de São Paulo, em conversa com outros colegas, sugeriu a comemoração desta data, a principio como uma confraternização. Depois, essa ideia foi se espalhando por todo o Estado São Paulo, sendo seguidos por outros. Segundo relatos, Becker destacava o peso do segundo semestre e como aquele período era necessário para reativar as energias, não apenas com o descanso, mas com esse fôlego de festividade e celebração.

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Já em 14 de outubro de 1963, o presidente João Goulart oficializa a data de “15 de outubro” como Dia dos Professores, sendo decretado feriado escolar em todo o país. E de lá para cá, em todo mês de outubro temos manifestações públicas, cartinhas, falas de personalidades políticas, alguns presentes e muito mais.

Longe de mim reclamar dessas atividades, façam sempre. Mas a pergunta que vem a mente é: e nos outros meses? Aonde está a consideração e reconhecimento sobre a profissão que forma todas as outras e ainda assim é a que menos gera comoção quando um aluno opta por seguir os passos? Escrevi aqui mesmo neste blog há algum tempo, um texto intitulado “Bons alunos fazem medicina?”, nele comentava como a sociedade escolar, aqui representada por pais, professores e direção observam com grande valor quando aqueles alunos que se destacam academicamente optam por cursar Medicina, Direito, Psicologia ou Engenharia (seja ela qual for) e, quando se deparam com a escolha de uma licenciatura se sentem infelizes.

Não meus amigos, a culpa não é da escola, nem dos pais ou coordenadores, a culpa é da nossa sociedade. Calculamos o sucesso de uma profissão através de seu status social e, na lógica capitalista, os melhores ganham mais. Desta forma, já foi o tempo, se é que existiu de fato, em que professores e professoras fossem vistos com o respeito devido a sua dupla função social de formar e educar. Todo mundo tem na família alguém que lembra com certo saudosismo um educador ou educadora que admirava e lembra como era respeitada, até mesmo como uma segunda mãe, temendo e respeitando como o fariam com os próprios pais.

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Destaco que não quero ser pai de ninguém, fora os meus lindíssimos três filhos, e nem quero ser temido por qualquer pessoa, não é disso que estou falando. Entretanto, o que mudou para não vejamos mais o respeito social sobre a “profissão” dos professores. Enfatizo a palavra PROFISSÃO, pois ser professor não é missão, ainda que esteja em seu bojo. Quem se dedica à docência com os pequenos e nunca ouviu a pergunta: “mas você também trabalha ou só dá aula?”. E como trabalhamos, afinal, pensar que o professor só trabalha no momento da aula, seria o mesmo que considerar que um atleta só o faz quando em competição. São horas e horas de planejamento, correções de atividades e, para os professores e professoras dos anos iniciais, muito E.V.A.

Há algum problema em se amar o que faz e querer reconhecimento financeiro por isso? Se assim o fosse, meu caro leitor, o capitalismo já haveria ruído. Toda profissão, na lógica em que vivemos, possui uma remuneração atribuída a sua importância, ou ainda, da importância que atribuímos a ela. Sei que pode parecer repetir a frase, mas não é. A atribuição se dá pelo outro, pelo que não a vive, por aquele que olha de fora do exercício, que minimiza a sua extensão, reconhecendo no instante da aula o seu todo, ainda sim não percebendo que em cada fala, cada ação e cada escrita no quadro negro com giz, uma teoria, uma metodologia e um plano.

E foi com base nesse não reconhecimento que não só o governo, estendendo aqui para além do Executivo do Estado do Paraná e os membros do legislativo, mas uma grande parcela da população que em 2015 tivemos o fatídico “29 de abril”, conhecido nacionalmente como o “Confronto” ou o “Massacre” do Centro Cívico, em frente da ALEP (Assembleia Legislativa do Paraná). As coisas já não vinham muito bem, mas pioraram no dia 27 de abril, quando os deputados estaduais votaram um projeto reestruturaria o Paranaprevidência, responsável pelo pagamento das aposentadorias dos servidores do Estado. Por 31 a 20, os deputados aprovaram o texto, que após revisão, seria votada a redação final no dia 29 de abril e, na sequência encaminhado para a sanção do governador Beto Richa (PSDB0.

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 Mas o que preocupava os professores? Resumidamente, mais uma vez os professores viam seus direitos adquiridos sendo ameaçados pelas políticas de um Estado, quando as manobras propostas acabariam colocando em risco a aposentadoria de milhares de profissionais, que veriam seu fundo previdenciário sendo remanejado, o que poderia gerar um caos muito em breve. Cabe destacar, que essa ameaça não era apenas para professores, mas para todo o funcionalismo público do Estado, inclusive para os policiais que estavam do outro das barreiras criadas naquele dia. Mais uma vez, foram os professores que deram aula de civismo e de organização na defesa de direitos, pagando com sangue por isso.

Concentrados em frente a ALEP, os professores foram atacados com bombas de gás, tiros de bala de borracha, um aparato imenso de policiais e até mesmo cães. Após algum tempo era possível ver dezenas de professores e professoras feridas, em diferentes graus de intensidade, mas para além do aspecto físico, todos nós professores, mesmo os que não estavam lá, foram atacados no serve da humanidade, a sua dignidade. Balas de borracha contra giz? Cães contra os cadernos? Pois bem, essa foi a lógica. Ainda que uma grande parcela da população apoiasse a medida do governo, uma grande maioria ficou ao lado dos professores.

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Não era a primeira vez que o Estado do Paraná mostrava o seu pior lado, afinal, quem não se lembra do dia 30 de agosto de 1988? Parecia que o Paraná estava a repetir as mesmas cenas daquele momento. Em 1988, professores de todo o Estado protestavam por melhores condições de trabalho e salários. Pacificamente caminhavam pela capital Curitiba, quando organizados na Praça Nossa Senhora de Salete, foram atacados por soldados da Polícia Militar montados em cavalos, com seus cães e bombas. Vinte e sete anos depois repetíamos a mesma cena, com uma diferença, uma cobertura maior da mídia, não a oficial, mas a das redes sociais. Agora não havia mais como distorcer, inverter e negar as atrocidades ali cometidas.

Hoje, 29 de abril de 2022, sete anos após o Massacre do Centro Cívico, que foi gerado pela proibição da participação dos professores no momento da votação do projeto, ainda carrega marcas e temas não solucionados. Destaco, que não culpabilizo, e nem é minha função como historiador condenar ou absolver, os policiais, pois eram eles também prejudicados naquela votação. Um amigo próximo, formado em História comigo, policial de carreira estava lá, ainda que acreditasse na importância da manifestação, mas não é assim que funciona a hierarquia. Os policiais, em sua maioria, tiveram inclusive prejuízos financeiros, pois tiveram que devolver valores referentes a alimentação e deslocamento para a missão. Eram também peças de um xadrez, onde o real jogador se escondia, tal qual os deputados que entraram escoltados e não se pronunciaram sobre o ato.

Meses depois, alguns responsáveis apareceram, o Comandante, o Secretário de Educação, o Secretário de Segurança Pública e outros, pediram demissão e saíram de cena. Os processos abertos, ora mostravam que houve uma ação truculenta como resposta a ação de black-blocks, ora mostravam que não houve excessos, nem mesmo que os militares tenham iniciado a ação, apenas se defendendo dos ataques dos educadores. Enfim, tudo arquivado, vida que segue, como se nada tivesse acontecido.

Devemos lembrar que a participação na votação tinha um valor de intimidação, necessário cabe dizer. A votação não tratava de números, mas de pessoas que dedicaram suas vidas às salas de aula e que naquele momento temiam pela não concretização do merecido descanso. As greves, manifestações e passeatas são formas de dizer ao mundo: existimos e estamos aqui. Um direito inalienável, que deve ser respeitado, pois de outra forma, estaríamos à mercê dos interesses e jogos políticos, que mudam de tempos em tempos, levando manadas ao abate como justificativa de solução.

Que possamos hoje refletir sobre o real papel dos professores na vida de nossos jovens. Aos médicos, advogados, psicólogos e engenheiros, que citei acima, lembrem que sua formação começou com alguém que merece mais do que respeito, merece reconhecimento. Sim, sei que pode parecer que estou falando em auto propaganda – e deve ser mesmo -, mas sou pai de alunos, fui e serei sempre um aluno, por isso falo para além de minhas ambições.

A pandemia mostrou para muitos defensores do homeschooling (ato de dar aulas em casa, sendo os pais os responsáveis pela educação dos filhos) a real importância dos professores. As videoaulas por melhores que fossem não puderam substituir o contato humano realizado pelos professores, que são capazes de perceber no olhar e nos gestos dos alunos, se estão ou não aprendendo. Ah, aprender, que coisa mais maravilhosa, não é? Sempre regozijo quando aprendo algo novo, muita coisa sozinho, isso é fato, mas nada substitui poder ver e ouvir aqueles que falam com paixão sobre seus temas.

Por fim, peço caro leitor e leitora, que recorde desse texto aquilo que o satisfazer, mas lembre principalmente que em outubro teremos outro dia 15, e que não há bombom, pen-drive ou declaração no Facebook que substitua o que de fato merece todo professor e professora em nosso país e todo o mundo: RESPEITO. Que a admiração que mostramos em outubro possa se repetir todos os dias, pois são estes professoras e professores que tem por missão educar e ensinar os infantes, entretanto, o fazem como profissão e não hobby. Professor não é aquele que tentou outra coisa e falhou, nem mesmo complemento de renda, é lutar para que o amanhã seja melhor, não apenas para ele, mas para toda a nossa nação. Feliz dia dos professores meus colegas, ainda que não seja 15 de outubro.     

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