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Ponto e vírgula – entre a inércia e o sonho

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Ponto e vírgula – entre a inércia e o sonho
Autor Foto: Ilustrativa/Freepik

Há quem diga que somos livres. Não como prêmio, mas como peso. Uma liberdade que não pede licença e não aceita desculpas. Talvez por isso os dedos tenham hesitado por tanto tempo antes de tocar o teclado.

O cérebro ordenava: escreva. Sempre ordena. Gosta de soluções rápidas, de frases bem fechadas, de pontos finais que dão a sensação de dever cumprido. Os dedos, no entanto, conhecem a parte que não aparece. Sabem que cada toque é um gesto que compromete. Que escrever não é apenas produzir palavras, mas assumir o que elas provocam depois.

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Entre eles existe uma tensão antiga. O cérebro pensa em intenções; os dedos lidam com atos. Já obedeceram comandos que pareciam inofensivos e aprenderam, tarde demais, que toda ação carrega consequências que não cabem na linha seguinte. Talvez por isso a dúvida tenha escolhido morar neles.

As palavras começaram a surgir com cuidado. Vírgulas surgiram como quem pede tempo. Reticências apareceram como refúgio elegante para a covardia. O cérebro aceitava bem essas pausas disfarçadas. Adiar sempre parece mais seguro do que decidir.

Até que algo rompeu o automatismo. Entre uma ideia e outra, surgiu o ponto e vírgula. Discreto, pouco amado, quase sempre esquecido. Ele não encerra e não foge. Reconhece o que veio antes, mas se recusa a fingir que aquilo basta. O ponto e vírgula avança com responsabilidade. Continua sem apagar.

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Ele não é indeciso. É consciente. Não oferece o conforto do fim, nem a leveza do escape. Exige que quem escreve assuma o que foi dito e, ainda assim, siga adiante. Uma escolha sem álibi.

Os dedos entenderam antes do cérebro: não existe neutralidade no silêncio. Não escrever também escreve. Adiar também constrói. A ausência de decisão não suspende a liberdade; apenas a transfere para o acaso, para os outros, para o tempo. E o tempo nunca pede permissão.

A vida se organiza desse modo. Não nos grandes gestos heroicos, mas nos pequenos adiamentos diários. Na conversa evitada, na resposta que não vem, no gesto mínimo que se repete até virar hábito. Cada vírgula mal colocada, cada reticência prolongada demais, cada ponto final precipitado vai desenhando um futuro que ninguém teve coragem de revisar.

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Há quem espere que a história se resolva sozinha. Que o silêncio preserve. Que não agir seja prudência. Mas o cursor segue piscando, incansável, lembrando que a página em branco não é neutra. Ela também é texto.

No fim, os dedos pressionam a tecla não por segurança, mas por lucidez. Não há garantias. Nunca houve. Viver não oferece rascunho nem tecla de voltar.

E quando alguém (Sartre) disse que o homem está condenado a ser livre, não falava de grandiosas escolhas existenciais, mas disso: do peso de cada pequeno gesto, inclusive o de fingir que não escolheu.

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