Sérgio Batista assistia ao jornal como quem acompanha um campeonato.
Sentado no sofá, controle remoto na mão, comentava cada notícia da guerra distante com a segurança de quem nunca ouviu uma bomba cair perto de casa.
“Eu já disse, tem que acabar com eles de uma vez.”
A frase saía fácil. Natural. Como quem discute futebol numa segunda-feira.
Quando aparecia o número de mortos na tela, Sérgio franzia a testa apenas o suficiente para parecer sério. Depois vinha o comentário inevitável:
“É guerra. Fazer o quê?”
Às vezes até fazia piada. Memes circulavam no celular, e ele encaminhava para os amigos com a mesma leveza com que se envia uma figurinha de bom dia. No fundo, aquilo tudo era simples para ele. Havia dois lados: o bom e o mau. E a guerra era apenas o caminho inevitável entre os dois.
Era longe. Era em outro país. Era televisão.
Meses depois começaram as notícias diferentes. Primeiro, o racionamento. O governo dizia que era temporário. Ajustes logísticos. Medidas preventivas.
Sérgio comentou no jantar:
“Normal. Isso acontece em guerra.”
Disse com uma estranha autoridade, como se tivesse estudado o assunto. Como se não tivesse aprendido tudo em trinta segundos de telejornal.
Depois vieram os apagões. As ruas da cidade começaram a mergulhar em noites inesperadas. O comércio fechava mais cedo. Sirenes de teste ecoavam de vez em quando.
Sérgio ainda dizia:
“Relaxem. Isso é estratégia.”
Mas agora sua voz já não tinha o mesmo tom de comentarista.
A primeira bomba caiu numa madrugada.
Não houve aviso. Não houve estratégia. Só o som. Um estrondo que pareceu rasgar o céu.
Na manhã seguinte, Sérgio caminhava entre vidros quebrados e paredes abertas como feridas. O bairro inteiro parecia uma fotografia de guerra que ele já tinha visto antes.
Na televisão, só que agora a televisão era a rua.
Dias depois, outra bomba caiu. Dessa vez perto da escola.
Sérgio apareceu em um telejornal improvisado, diante de um repórter com o microfone tremendo na mão. O rosto dele estava coberto de poeira.
A voz também tremia.
“Meu filho estava na escola... eu só quero encontrar meu filho... alguém me ajuda a encontrar meu filho...”
Atrás dele, a praça onde o menino brincava tinha virado um monte de concreto.
Naquela mesma noite, em outro país, um homem assistia ao jornal sentado no sofá.
O repórter mostrava imagens da cidade destruída.
Escombros. Sirene. Gente correndo.
O homem balançou a cabeça. Pegou o celular.
E comentou no grupo dos amigos:
“É guerra. Fazer o quê?”
Depois mandou um meme. E mudou de canal.
A guerra só parece simples quando os mortos ainda não têm o nome do seu filho.