Na fotografia emoldurada da sala principal, o nome era sempre o mesmo: Antônio Ferraz, o primeiro dono da padaria.
O homem do terno escuro, bigode bem aparado, postura firme de quem ousou quando quase ninguém ousava.
E é justo que seja lembrado. Empreender naquela terra vermelha, quando tudo ainda era barro e incerteza, exigia coragem, visão e risco.
Antônio foi, sim, um pioneiro.
Mas a história raramente para onde deveria.
Pouco se dizia sobre Benedito, que acordava antes do sol, quando a cidade ainda respirava em silêncio.
Era ele quem sovava a massa, sentia o ponto com a palma calejada, queimava os dedos no forno para que o pão saísse no horário.
Sem Benedito, não havia pão.
Sem pão, não havia padaria.
Mesmo assim, seu nome nunca entrou na fotografia.
Havia também Sebastião, o rapaz que empurrava a bicicleta pesada, equilibrando cestos pelas ruas sem calçamento.
Conhecia as casas pelo latido dos cachorros, não pelos números.
Aprendeu cedo que pontualidade não rende aplauso, apenas confiança silenciosa.
Todos foram pioneiros.
Cada um à sua maneira.
Cada um ocupando um lugar distinto na engrenagem frágil do começo.
O problema nunca foi quem prosperou.
O problema foi quem decidiu que prosperar era o único critério para permanecer na memória.
Quando a cidade cresceu, Antônio virou nome de rua.
A padaria virou patrimônio.
E isso é legítimo.
Mas Benedito envelheceu curvado sobre o próprio corpo, como massa que passou do ponto.
Sebastião virou pai cedo demais, avô cedo demais, invisível por tempo demais.
A crítica não é aos pioneiros celebrados.
É aos narradores da história.
Aos que transformaram memória em vitrine.
Aos que confundiram sucesso com mérito exclusivo, como se a cidade tivesse sido erguida apenas por quem apareceu nas atas, nas placas e nos discursos.
Toda cidade é feita também de gente que ficou.
Gente que sustentou, repetiu, insistiu.
Gente que não acumulou capital, mas acumulou dias de trabalho.
Gente cujos nomes não desapareceram - foram apenas cobertos, como a terra roxa sob o asfalto.
Hoje, muitos descendentes caminham por essas ruas sem saber que seus avós ajudaram a levantá-las com o próprio corpo.
Herdaram o silêncio, não a homenagem.
Mas herdaram, ainda assim, pertencimento.
E talvez amadurecer como cidade seja isso:
não apagar quem foi lembrado,
mas ampliar o olhar para quem ficou de fora da moldura.
Por isso, que se diga, com respeito e verdade:
felizes 82 anos, Apucarana, aos nomes escritos nas placas e aos que ficaram soterrados sob o asfalto, sustentando, em silêncio, tudo aquilo que hoje chamamos de história.