O setor público brasileiro precisa, com urgência, reaprender uma lição elementar que qualquer família, empresa séria ou gestor minimamente responsável conhece: recurso é limitado, necessidade é infinita e escolha malfeita cobra um preço alto no futuro. Em finanças públicas, esse preço nunca aparece apenas numa planilha. Ele surge na fila da saúde, na escola sem estrutura, na estrada esburacada, no remédio que falta, na obra que não sai do papel e na política pública que morre antes de nascer.
O problema é que, no Brasil, ainda há muito governante que gosta de mostrar algo que não fez ou que não irá mudar a vida das pessoas. Governar é fazer escolhas duras, racionais e moralmente defensáveis. Política pública de verdade não é a que rende aplauso instantâneo em rede social. É a que altera a vida concreta das pessoas, especialmente das que mais dependem do Estado.
Essa reflexão não é nova. Em textos anteriores, já apontei que o desastre fiscal não nasce do acaso, mas de sucessivas decisões irresponsáveis, de populismo fiscal, de falta de planejamento e de gastos excessivos que comprimem a capacidade do Estado de cumprir suas funções essenciais. No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, o alerta era claro: crises fiscais profundas são frutos de escolhas políticas ruins, não de fatalidades. E o mais incômodo dessa constatação é que o problema nunca fica restrito ao ente que colapsa. Ele serve de espelho para todos os outros. O Rio, como já se disse, pode estar logo aqui.
Também já escrevi que o gasto com pessoal precisa ser analisado com seriedade, porque o orçamento público não financia apenas folha de pagamento. Ele financia custeio, serviços, remédios, material escolar, manutenção e investimento. Quando a estrutura da despesa se desequilibra, o Estado vai perdendo fôlego para entregar aquilo que justifica a sua própria existência. E, quando isso acontece, sobra muito discurso e falta resultado.
É nesse ponto que o caso do Paraná se torna emblemático. Em 2025, o governo estadual editou medida de reprogramação de despesas não essenciais. O discurso oficial foi o de preservar a sustentabilidade fiscal, manter a nota máxima de capacidade de pagamento e proteger investimentos e serviços essenciais. Depois, a própria Secretaria da Fazenda reforçou que a intenção era reorganizar o orçamento, cortar excessos e manter a máquina funcionando com mais eficiência.
Estado sério não pode confundir despesa supérflua com prioridade pública. Combater desperdício, rever custeio frouxo e enquadrar mordomias administrativas é obrigação, não virtude extraordinária. Não se deveria aplaudir um governo por fazer o mínimo civilizatório. O aplauso só seria plenamente merecido se a economia gerada se convertesse, de forma visível e mensurável, em mais investimento social e em melhoria concreta dos serviços públicos.
Cortar “mordomias” não pode ser apenas um discurso conveniente para maquiar contingenciamentos, justificar compressões indiscriminadas ou produzir propaganda política. Ajuste sério não é encenação moral nem peça publicitária para gerar aplausos, mas a capacidade de distinguir o essencial do acessório, preservar serviços prioritários e direcionar recursos para investimentos e políticas públicas que realmente mudam a vida das pessoas. precisamos menos de gestores performáticos e mais de governantes responsáveis, transparentes, maduros e dispostos a explicar suas escolhas, expor números com honestidade e aceitar controle e cobrança. Fora disso, sobra apenas vaidade administrativa, pose, marketing e desperdício disfarçado de gestão eficiente.