Quando mencionei recentemente que o setor de confecções de Apucarana foi o que mais contratou no Paraná em 2025 dentro do segmento, mas ao mesmo tempo apresentou um dos menores salários médios de admissão, algumas pessoas logo perguntaram: afinal, qual é o salário médio de contratação no município?
Segundo o CAGED, o salário médio de contratação em Apucarana em 2025 foi de R$ 2.110,19, muito próximo do valor registrado no setor de confecções (R$ 2.109,60). Esses dados refletem o que está registrado no mercado formal. Embora alguns trabalhadores recebam valores adicionais como comissões ou bônus, também existe a realidade de remunerações que não são integralmente registradas na carteira, o que levanta uma reflexão importante sobre transparência e acesso pleno aos direitos e à proteção social.
O salário registrado define os direitos fundamentais do trabalhador. A contribuição previdenciária, o valor da aposentadoria futura, o cálculo de benefícios como auxílio-doença, seguro-desemprego e até o FGTS dependem diretamente do que está formalmente registrado. Quando existe uma diferença entre o que o trabalhador recebe e o que está oficialmente declarado, cria-se um problema que só aparece muitos anos depois.
Imagine um trabalhador que, ao longo da vida, recebe o equivalente a dois salários mínimos mensais, mas tem apenas um salário mínimo registrado. Durante a vida ativa, talvez essa diferença pareça administrável. Porém, quando chegar o momento da aposentadoria, o benefício será calculado sobre o valor registrado. Isso significa que alguém que organizou sua vida com base em determinada renda poderá enfrentar uma redução abrupta de padrão de vida justamente quando mais precisaria de segurança.
Esse é um tema sensível e que precisa ser tratado com equilíbrio. Muitos empresários argumentam, com razão, que os custos trabalhistas e tributários no Brasil são elevados e pressionam a competitividade das empresas. Mas também é verdade que existem empresas que conseguem operar no mesmo mercado registrando integralmente a remuneração de seus trabalhadores e ainda assim permanecem competitivas. Isso indica que a discussão não deve se limitar apenas ao custo do trabalho, mas também às estratégias empresariais.
A experiência de diversos setores mostra que empresas que investem em tecnologia, qualificação profissional e boas práticas de gestão conseguem produzir mais e melhor. Quando a produtividade aumenta, torna-se possível pagar melhores salários sem comprometer a competitividade. Nesse ambiente, trabalhadores mais valorizados tendem a se engajar mais, elevar a qualidade do trabalho e contribuir para o desempenho coletivo da empresa.
Por isso, a discussão sobre salários não pode ser reduzida a um conflito entre trabalhadores e empregadores. Trata-se de reconhecer uma interdependência objetiva. Empresas precisam faturar e lucrar para investir e crescer. Trabalhadores precisam de renda adequada e proteção social para viver com dignidade e segurança ao longo da vida.
Quando essas duas dimensões caminham juntas, forma-se um círculo virtuoso: trabalhadores com renda mais estável consomem mais, fortalecem o comércio e os serviços, e alimentam o dinamismo da economia local. Ao mesmo tempo, empresas com equipes qualificadas e engajadas aumentam sua produtividade e ampliam suas oportunidades de crescimento. O desafio, portanto, não é escolher entre salários e competitividade. O verdadeiro desafio é construir um ambiente econômico em que produtividade, remuneração justa e proteção social caminhem na mesma direção.