Aos poucos todos nós vamos morrendo

Da Redação ·
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fonte: Pixabay

Não caro leitor e leitora, esse texto não é uma reflexão existencialista filosófica, na busca de um sentido para a vida, ainda que Sartre possa aparecer em algum momento, já que a angústia sartreana explique muito do que proponho aqui. Sartre dizia que a angústia surge na medida que os indivíduos não são suficientemente preparados para o futuro, restando os conflitos de uma existência que busca sentido. A responsabilidade de nossas ações recai sobre nós, obviamente, mas reverbera nos demais. Escolher é crucial, logo o medo de suas consequências nos paralisa. Estamos todos paralisados hoje diante do medo.  

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Semanas atrás, escrevi um texto pensando sobre o caso da professora assassinada e hoje, infelizmente, sou tomado pelo tema novamente, só que agora com pequenas crianças. Principalmente como pai, mas também como professor, fui fortemente tocado pela notícia do atentado em Blumenau/SC, onde um homem (se é que podemos assim classificá-lo) atacou brutalmente crianças e bebês com uma frieza que nem mesmo os piores filmes de terror poderiam apresentar. Mas, para piorar a situação, vimos a construção de um sensacionalismo extremado sobre o tema. O que tem levado pânico a toda uma população, que agora temem pelo cotidiano.  

Não tenho a intenção de indicar análises políticas sobre a violência, ainda que elas sejam necessárias, mas elas nos afastariam de nosso objeto, uma vez que ela cega aos que se dedicam a ela. O fato é que estamos vivendo um estado de violência constante, onde pessoas se orgulham de ser violentas e estúpidas, colocando à força suas vontades. Podemos culpar jogos de videogame, filmes e até mesmo a política, mas o que ocorre que estamos em uma tensão constante e nossos filhos são testemunhas desses momentos. Recebemos em grupos de WhatsApp (de famílias, principalmente) mensagens carregadas de cenas de violência, com mortos e feridos, sangue e a desconstrução total do que achávamos ser a humanidade. E quem está neste grupo? Nossos filhos. “É bom que ele saiba a realidade!”, mas será essa a realidade ou a estamos construindo com narrativas que normalizam a violência e, com ela, o medo.  

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Esses maníacos querem palco e visibilidade. O que fazemos? Repercutimos ao limite suas fotos, nomes e cenas de seus atos. Ora, ainda que pareça estarmos prevenindo aos que amamos, estamos criando o ambiente para que tais fatos se repitam. O sensacionalismo não ajuda em nada, pelo contrário, acentua a dor de todos os envolvidos, incentiva novos monstros e cria uma tensão social inconteste.  

Nossos filhos (para falar deles, ainda que seja muito sobre cada um de nós) passaram por uma pandemia há pouquíssimo tempo, sendo que o medo da morte nunca havia feito tanto sentido. Para muitos jovens que ainda guardam sequelas daquele período, uma nova onda de estresse os afasta do ambiente que deveria representar acolhimento e segurança. Ainda que medidas de segurança devam ser tomadas, pois é melhor pecar pelo excesso do que pela falta de planejamento, não podemos ser os porta-vozes de um novo apocalipse.  

A liberdade de expressão neste país criou uma horda de pessoas sem conteúdo que buscam se legitimar no grito (e muitas vezes na bala), mas gerou também um efeito colateral, que foi inspirar jovens e adultos que não percebem o limite entre a ficção e a realidade, cometendo e incentivando atrocidades nas redes sociais. Nós, pais e professores, devemos estar atentos, primeiramente aos nossos filhos e alunos, censurando o que consideramos perigoso. Sim, meus amigos, sou a favor da censura, mas nos moldes de Karl Popper, que dizia sobre a intolerância para com os intolerantes. Devemos acabar com esses discursos de ódio e proteger a todos que amamos e, também aqueles que não amamos. Não propague fake News, não estimule o pânico, não seja um mal exemplo. Proteja seus filhos do mundo, mas comece em casa.