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Especialista em drogas é chamado a depor

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MARIANA ZYLBERKAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há 50 anos a frente de pesquisas sobre os efeitos medicinais da maconha, o professor emérito da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Elisaldo Carlini, 88, conta que levou um susto quando foi intimado a depor no 16º DP (Vila Clementino) na quarta-feira (21) por apologia às drogas. "Fiquei surpreso porque estou com 88 anos, falei minha vida toda sobre maconha e agora que me descobriram? No momento em que a maconha está reconhecida no mundo como medicamento?", questionou.

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Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo, em 1957, Carlini se tornou internacionalmente conhecido por suas pesquisas sobre drogas medicinais à base de Cannabis sativa, o princípio ativo da maconha.

A intimação para depor foi motivada por um simpósio sobre o uso terapêutico da maconha organizado por Carlini em maio. Na programação, a mesa intitulada "Maconha e Filosofia" chamou atenção das autoridades.

Entre cientistas e professores universitários, o simpósio convidou Geraldo Antônio Baptista, o Ras Geraldinho, fundador da primeira igreja rastafári no Brasil, para participar do debate. "Queríamos ouvir a experiência de alguém que tivesse sofrido as penalidades da lei por portar maconha e os danos que isso trouxe", disse o especialista.

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Por estar preso cumprindo pena de 14 anos por plantar maconha na sede da igreja, em Americana (SP), Ras Geraldinho conseguiu participar do encontro graças ao indulto do dia das Mães. A programação teve início poucos dias antes da data comemorativa, em São Paulo. "Pedimos à Justiça para antecipar em algumas horas sua saída, mas foi indeferido", lembra.

A decisão de indeferir a antecipação da saída de Geraldinho foi da juíza Corregedora dos Presídios da Região de Campinas, Carla dos Santos Fullin Gomes.

O professor acredita que a juíza provocou o Ministério Público a questioná-lo sobre o convite a Geraldinho. A intimação foi enviada a pedido da promotoria de Campinas, que considerou o convite "forte indício de apologia ao crime", segundo Renato Filev, pesquisador também intimado a depor.

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"Quero lamentar a falta de entendimento da magistrada por nunca ter participado de uma palestra sobre maconha para fins medicinais", diz o professor.

O TJ-SP foi procurado e informou que seus magistrados não podem se manifestar sobre questões judiciais.

Carlini agora aguarda decisão judicial sobre a instauração de inquérito. "Foi uma experiência valiosa. Depois disso, fiquei com dó, não de mim, mas da ciência do meu país. Isso só mostra como a lei que proíbe o uso medicinal da maconha é inócua, vivemos no século passado."

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REPERCUSSÃO

A notícia de que o professor tinha sido intimado a depor em uma delegacia por apologia às drogas motivou entidades médicas e científicas a publicar notas de repúdio.

A Unifesp, onde Carlini integra o quadro de professores eméritos, manifestou preocupação e reforçou seu apoio ao pesquisador. A ABC (Academia Brasileira de Ciência), a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) também se manifestaram contrárias à intimação. "Elisaldo Carlini é imprescindível e sua carreira é uma apologia à vida", escreveram a ABC e a SBPC.

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