Leia a última edição Siga no Whatsapp
--°C | Apucarana
Euro
--
Dólar
--

Geral

publicidade
GERAL

Vizinhos de parque em SP relembram medo do fogo e desespero dos animais

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Telegram
Siga-nos Seguir no Google News
Grupos do WhatsApp

Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline

MARINA ESTARQUE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Durante a missa deste último domingo (17), a fuligem caía lenta e insistente do céu. Entrava pelas frestas do telhado, forrava os bancos da igreja, maculava a hóstia e cobria a estátua da padroeira, Nossa Senhora da Esperança. Apesar do incêndio que castigava o parque estadual e parte do Complexo Hospitalar do Juquery, em Franco da Rocha, a missa não foi cancelada.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Associe sua marca ao jornalismo sério e de credibilidade, anuncie no TNOnline.

Naquele domingo, o fogo tinha cruzado montanhas e chegado bem perto da igreja do bairro Jardim Esperança, em Caieiras, vizinha a Franco da Rocha, na Grande SP. "A gente viu aquela cortina de fumaça vindo do morro. Precisamos cobrir as Bíblias e os cálices para proteger tudo", conta o secretário da igreja, Alison Pereira, 25.

Nesta terça-feira (19), as cinzas ainda sujavam os móveis e objetos da paróquia, mesmo após as limpezas diárias. "O fogo acabou ontem, mas ainda tem fumaça, e a fuligem continua caindo", diz.

A reportagem visitou bairros de Caieiras e Franco da Rocha vizinhos ao parque consumido pelas chamas na última semana. Encontrou um cenário com as marcas do incêndio e ouviu relatos de medo daqueles que, da janela de suas casas, ouviam os gritos dos animais e viam as labaredas se aproximarem cada vez mais de suas residências.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Muitos sofreram com a fumaça, aulas foram interrompidas e famílias fizeram mutirão com balde e mangueiras para conter o fogo. Em Caieiras, uma escola estadual foi afetada. Na última quinta-feira (14), professores precisaram liberar os cerca de 140 alunos do turno da tarde porque a fumaça tinha invadido as salas de aula.

"Telefonamos para os pais virem buscar, e levamos os alunos para o pátio, onde fizemos algumas atividades", conta a diretora, Deise Ramos. A professora de inglês Maria José, 40, precisou cancelar a prova. "Fiquei com a garganta inchada, era muita fumaça, muito aluno tossindo."

O número de focos de queimada no Estado de SP mais do que quadruplicou neste mês em relação a setembro de 2016 –foram 2.242 até agora, contra 487 no ano passado. É a maior marca do mês desde o início da série histórica, em 1998, segundo os satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

No acumulado até setembro, a quantidade de queimadas também aumentou. Houve 4.572 neste ano, ante 2.933 em 2016 (56% a mais).

CINZAS NA CAMA

A queimada virou o assunto da semana em Caieiras, Franco da Rocha e cidades próximas ao parque. Vizinha da escola afetada, a dona de casa Genilda da Silva, 40, viu da janela de seu quarto as labaredas chegarem cada vez mais perto, durante seis dias. O fogo consumiu boa parte da mata diante do seu apartamento, em um conjunto habitacional na região.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

"Deu medo. A gente escutava o barulho dos animais, os macacos gritando. Primeiro veio uma nuvem de fumaça e depois o fogo. Até ontem ainda estava queimando", diz.

Os móveis, o chão e até a roupa de cama ficaram cheios de fuligem. "Tirávamos os lençóis antes de dormir e batíamos na janela, para tirar aquele pó", afirma a dona de casa, que passa a mão no chão e mostra os dedos pretos de carvão. "Já limpei várias vezes e continua sujo. A roupa do varal tive que lavar toda, ficou igual churrasco."

Para dormir com as crianças, Genilda colocava uma bacia de água e toalhas molhadas no quarto. "Fechamos todas as janelas com panos molhados, foi terrível." A filha Gabriely, 7, é alérgica e acabou doente. "Tossi muito e vomitei", diz a menina.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Relatos de moradores que precisaram ir ao médico por crises respiratórias após o incêndio são comuns na região. A funcionária pública Aline Berno, 32, e o filho de oito anos passaram mal. "Temos rinite. Eu fiquei com falta de ar. Fechamos tudo pela fumaça e ficamos em casa sufocando de calor. Prejudicou a vida de todo mundo aqui."

BALDE E MANGUEIRA

Em Franco da Rocha, moradores precisaram combater um incêndio com balde e mangueira até a chegada dos bombeiros. A técnica em enfermagem Angela de Sá, 33, e o filho Luis Henrique, 12, estavam em casa quando ouviram o crepitar do fogo no terreno em frente. Conseguiram conter as labaredas com baldes de água, mas logo o fogo voltou e se alastrou. "Mãe, corre!", gritou o menino.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Angela ligou para os bombeiros e pediu ajuda para dois vizinhos, que acudiram com mangueiras. Mãe e filho pegaram máscaras e óculos de proteção nas ferramentas do pai, um metalúrgico, e trabalharam quatro horas na contenção do fogo. No terreno diante da casa, então em chamas, a família havia criado um espaço de lazer para crianças do bairro.

"Quando a gente chegou aqui não tinha nada, era só um mato alto cheio de aranha e escorpião. Meu marido carpiu, fez banquinhos de madeira, uma cesta de basquete e as traves do gol para as crianças jogarem". A família construiu também um deque de madeira, apoiado nas árvores, e plantou uma horta. "Fiquei desesperada, fizemos o jardim e brinquedos com tanto cuidado", lembra Angela.

Os objetos de madeira foram salvos, mas Angela viu a sua laranjeira, jabuticabeira e pitangueira serem consumidas pelo incêndio. "Que dó", diz ela, apontando para as árvores todas secas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Boa parte do cemitério do Complexo Hospitalar de Juquery também não escapou do fogo. O complexo abriga o hospital psiquiátrico, inaugurado em 1898 como colônia agrícola, e tem edifícios tombados pelo patrimônio histórico e uma área verde, com um cemitério, hoje desativado.

Nesta terça-feira, o cenário era desolador: lápides e cruzes, antes brancas, estavam chamuscadas e cobertas por galhos retorcidos. Entre os túmulos, uma camada grossa de cinzas. Ao fundo, uma imensidão de árvores queimadas.

Gostou da matéria? Compartilhe!

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Email

Últimas em Geral

publicidade

Mais lidas no TNOnline

publicidade

Últimas do TNOnline

TNOnline TV