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Don DeLillo lança romance sobre a tentativa de prolongar a vida por meio da criogenia

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MAURÍCIO MEIRELES

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Primeiro, havia a visão de arranha-céus em um lugar remoto. Depois, virou o subterrâneo de algum lugar. Nesse lugar, a busca pela vida após a morte -não a imortalidade da alma, mas a do corpo.

Don DeLillo, um dos maiores prosadores americanos vivos, escreve assim: vendo o romance se desdobrar como se tivesse vontade própria, frase após frase.

Ao ter a "visão" das pessoas no subterrâneo, soube que o romance que começava a dar as caras e agora chega às prateleiras, "Zero K", seria sobre a criogenia.

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Nesse processo, só acessível aos muito ricos, uma pessoa é congelada -com a esperança de que, com o passar das décadas e a evolução científica, a morte possa ser revertida. O título do livro se refere a zero Kelvin (-273,15 graus Celsius), o zero absoluto, temperatura mais fria existente.

"Nas religiões convencionais, as pessoas acreditam na vida após a morte sob um ponto de vista espiritual. Na criogenia, é de um ponto de vista físico, a sobrevivência do corpo", diz DeLillo à Folha por telefone, com o fiapinho de voz de um senhor de 80 anos.

O romance começa com Jeff, o protagonista, indo encontrar o pai bilionário e a madrasta em um local remoto, no meio do deserto, onde ela será congelada em uma cápsula -e esperará pela ressurreição.

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Naquele local, fica a Convergência, grupo científico dedicado à criogenia -que também tem um ar de seita mística, tamanha é a fé que deposita na nova vida para a carne e a esperança megalomaníaca que tem na tecnologia.

"Não é um livro de ficção científica, porque a criogenia existe de verdade", diz DeLillo. "Há um elemento religioso na criogenia, nesse desejo de ampliar a vida."

"Também é poética a ideia de um corpo guardado em uma cápsula, que vai sobreviver por 20, 30 anos. Não um corpo vivo, mas um corpo que tampouco é corrompido pelo tempo."

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O autor então dedica-se a tecer questões sobre essa forma de imortalidade: a personalidade do indivíduo é mantida depois desse processo? Quem será a pessoa quando recuperar a consciência? O ressuscitado tem a mesma identidade de antes?

Não à toa, um dos grandes momentos de "Zero K" é o capítulo em que o romancista imagina os pensamentos da madrasta dentro da cápsula. Não é só a identidade que se embaralha, mas a própria percepção do tempo.

"Ela está no começo do processo. São pensamentos primitivos, ela só consegue pensar nas mesmas coisas. Claro, isso é ficção."

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O romance traz uma atmosfera opressiva -mesmo quando poética. O clima é reforçado pelas descrições da do local onde se passa a maior parte da história, que parece misturar arquitetura fantástica e arquitetura totalitária.

São portas da mesma cor que se repetem, elevadores que andam para o lado, passagens secretas, escadas ocultas, locais subterrâneos, um jardim murado com plantas artificiais -e corpos depilados, que parecem manequins macabros, dentro de suas cápsulas.

"Não quis entrar a fundo na identidade da Convergência, porque o livro é sobre as pessoas lá. Há momentos que podem ser interpretados como totalitários, mas não quis ir a fundo nesse elemento. Seria ambicioso demais em termos temáticos ter tantas ideias."

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PERGUNTAS

Como descobre o romance conforme ele se revela, DeLillo não escreve para dar respostas. Quando elas surgem, é resultado do caminho dos personagens e da identidade que eles "escolheram" para si.

Especulações há muitas. Se a religião, por exemplo, lida com o medo da morte, o que acontecerá se a vida for eterna? Um personagem imagina: surgirá uma religião da morte como reação. Que matará pessoas aleatoriamente. Que fará banhos de sangue e rezará sobre os cadáveres.

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Perguntas, DeLillo faz outras tantas. Não haverá um nível insustentável de população? O que haverá com o dinheiro? O que haverá com Deus? Sobre o que os poetas cantarão?

Observador agudo da realidade americana, DeLillo é um escritor de temas políticos. Já passou pelo assassinato de Kennedy, o terrorismo, a guerra no Iraque, o sistema financeiro e muitos outros assuntos. Ele vai escrever sobre Donald Trump?

"Entendo a importância, mas não encarei a questão. Não estou pronto para dar a visão abrangente que o assunto precisa... Pode acontecer", diz, evasivo. Mas como vê a ascensão de formas de extremismo pelo mundo?

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"Acho que há partes do mundo que já são totalitárias [de novo]. O mundo mudou um pouco no meu tempo de vida. Agora estamos em um período, aqui no EUA inclusive, de não saber o que está havendo -e isso nos preocupa. Há perguntas sem respostas. E eu não tenho mais tempo para perguntas", afirma, pedindo para encerrar a entrevista.

ZERO K

AUTOR Don DeLillo

TRADUÇÃO Paulo Henriques Britto

EDITORA Companhia das Letras

QUANTO R$ 49,90 (272 págs.)

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