Leia a última edição Siga no Whatsapp
--°C | Apucarana
Euro
--
Dólar
--

Geral

publicidade
GERAL

Não sou Ferrante, e tenho pouco interesse nisso, diz autor do ótimo Laços

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Telegram
Siga-nos Seguir no Google News
Grupos do WhatsApp

Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline

SÓ PODE SER REPRODUZIDO NA ÍNTEGRA E COM ASSINATURA

MAURÍCIO MEIRELES

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Associe sua marca ao jornalismo sério e de credibilidade, anuncie no TNOnline.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O italiano Domenico Starnone nunca mais vai teve paz.

Mesmo sendo um dos autores mais importantes de seu país, a existência dele como artista foi atada a um mistério: a verdadeira identidade de Elena Ferrante.

Basta olhar como a crítica internacional recebeu "Laços", romance que ele lança agora no Brasil.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

As resenhas tornaram-se uma busca por pistas escondidas -e logo viram-se semelhanças entre esse livro e "Dias de Abandono", de sua compatriota. As semelhanças passam pelo tema -o adultério-, imagens e personagens.

A desconfiança não é vazia. Há dez anos, um grupo de físicos e matemáticos colocou os livros de Ferrante em um software de análise de texto -e o computador disse ser "alta" a probabilidade de a autora misteriosa ser Starnone.

Para piorar, no ano passado, o jornalista Claudio Gatti divulgou os resultados da investigação que realizou a fim de descobrir a identidade da autora de "A Amiga Genial".

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Por meio de registros imobiliários e financeiros, ele provou um crescimento no patrimônio da tradutora Anita Raja e nos pagamentos feitos a ela pelas Edizioni E/O, casa que publica os livros de Ferrante. O incremento nos valores pagos, bem acima da média de mercado para um tradutor, coincidiam com o sucesso dos livros da italiana.

Anita Raja -surpresa!- é a mulher de Starnone. E aí?

"Não sou Elena Ferrante e tenho muito pouco interesse nesse tipo de pergunta. Deixemos disso", diz o escritor à Folha de S.Paulo, por e-mail.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O pedido é justo. Afinal, tudo isso são curiosidades extraliterárias.

Sim, "Laços", pode até também ter em seu centro de gravidade um homem que abandona a família por uma mulher mais nova, como em "Dias de Abandono". Mas é um livro cujas qualidades estão mais na sua particularidade do que na semelhança com a obra de Ferrante.

Para começo de conversa, o romance escrito por ela está centrado no desespero de uma mulher deixada. "Laços", por sua vez, está mais interessado no poder destrutivo das relações familiares e na tentativa de reconciliação.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

"As feridas deixam cicatrizes, e cicatrizes são marcas que reativam a memória. Isso é um obstáculo permanente ao perdão", diz Starnone.

No livro, contado sob três pontos de vista -da mulher, do marido e dos filhos-, o casal, já reconciliado, um dia encontra seu apartamento revirado. E os objetos espalhados começam a despertar as memórias dolorosas.

O cenário surge como uma metáfora das ruínas sobre as quais os personagens vivem.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

TRADIÇÃO E TRAIÇÃO

A tradição literária é pródiga em adúlteras ilustres, mas é incomum um autor escrever sobre a infidelidade masculina. Muito menos vista como algo desagregador, como faz o italiano.

"Nessa grande tradição literária, o casamento e a família são sempre corroídos dramaticamente pela infidelidade feminina", diz ele, acrescentando que o adultério masculino era visto como um "fato da natureza", sem interesse literário.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

"Quis mostrar que a traição masculina não é uma travessura sem consequências. A literatura focou mais nos excessos das mulheres traídas ou na tendência 'inerente' a elas de cometerem adultério."

Ler Starnone é olhar pelo buraco da fechadura, porque o autor observa as relações familiares de perto.

Para o autor, a família é onde aprendemos a esconder nossa animalidade.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

"Mas também é o lugar onde descobrimos que nossa natureza animal provoca fissuras no edifício do comportamento humano. Por isso a família é muito estimulante do ponto de vista narrativo", afirma Starnone.

Há ainda um olhar para a história social da família.

O protagonista, Aldo, deixa mulher e filhos e se dá a desculpa de que é errado contrariar seus desejos -a traição acontece no fim dos anos 1960, enquanto a revolução nos costumes corria solta.

O tom do autor é pessimista -não por achar que a mudança não fosse necessária, mas porque ela ainda não acabou e, segundo ele, vivemos dentro das mesmas estruturas, agora em colapso.

"As crianças sofriam na velha família patriarcal e sofrem ainda mais em sua dissolução. Elas são o elo mais fraco. Se amadurecemos mal dentro de instituições sufocantes, cresce-se ainda pior quando tais instituições são substituídas por ruínas."

CASA EM RUÍNAS

A própria casa destruída é um personagem em si, interagindo o tempo inteiro com marido, mulher e filhos --e é um impedimento para que eles esqueçam qualquer coisa, criando uma atmosfera irrespirável de ressentimento.

De onde vem o interesse tão grande por esse cenário?

"Não sei a resposta. Quando criança, 'A Toca', um conto de Kafka, me impressionou muito. Talvez a sensação de segurança e, ao mesmo tempo, de insegurança que os apartamentos me causam tenha uma origem literária", diz.

A memória é um dos assuntos mais importantes do romance. Lembranças frustrantes e cheias de rancor estão sempre ancoradas em objetos. O leitor pode pensar em Proust, mas aqui a relação entre eles e a memória é muito diferente.

Em vez de servirem para resgatar o "tempo perdido" de forma involuntária, os objetos são escondidos de propósito para afastar lembranças ou guardados para materializar o que não some da mente. Em "Laços" ninguém esquece, ninguém perdoa.

Gostou da matéria? Compartilhe!

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Email

Últimas em Geral

publicidade

Mais lidas no TNOnline

publicidade

Últimas do TNOnline

TNOnline TV