Com participação de Ney Matogrosso, Cabaret lança disco sobre a paixão
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GABRIELA SÁ PESSOA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Mas eu nunca mais vou me apaixonar/Nunca mais vou deixar o amor entrar."
Atire a primeira pedra o coração partido que não disse tal frase (da música "A Paixão Segundo Cabaret") nos arroubos de uma decepção.
No caso do eu lírico em torno do qual gira o disco "A Paixão Segundo Cabaret", segundo da banda de rock independente Cabaret, lançado no primeiro semestre, a negação dura só até a terceira canção, "Animal".
"Nessa música, ele [o personagem] encontra a mulher da qual ele não poderá escapar e que se torna um obstáculo para aquela vida. A partir daí, ele vive as etapas da paixão", diz o compositor e vocalista Márvio dos Anjos.
O disco -mixado em Abbey Road-, como o nome antecipa, mergulha nos sentimentos despertados pelo processo de se apaixonar em 13 canções.
O trabalho sai quase dez anos após o primeiro trabalho do grupo, "Cabaret" (2007), e cinco anos depois de sua gravação, entre 2009 e 2010.
"Eu diria que a banda não é atividade prioritária de nenhum músico independente do Brasil", comenta Márvio, jornalista em horário comercial. "Toda vez que você falar com um músico independente, qualquer um, ele vai ter no mínimo um projeto de cover que o sustenta. É uma lógica até cruel, num certo sentido."
O vocalista logo corta o assunto sobre negócios e dificuldades de lançar um trabalho independente no país hoje -diz acreditar que esse é "um dos grandes esvaziamentos da vida cultural". "Nos preocupamos muito com os meios de produção da arte, e acabamos dando por encerrado o valor intrínseco à obra."
OLHOS NOS OLHOS
O primeiro encontro de "A Paixão" foi com a composição "Dentro de Você", em que o vocalista do Cabaret divide os vocais com Ney Matogrosso.
"É uma música sobre rancor. Fiquei imaginando como seria se aquela mulher que o Chico Buarque canta [em 'Olhos nos Olhos'] de repente abrisse mão da arrogância, voltasse e tentasse a aproximação", diz Márvio.
"E aí surgiu essa música, que é sobre aquele estágio da paixão que não é um estágio de paixão. É quando você sente que, se a pessoa [com quem rompeu] sofre mais do que você, você acha que é vencedor."
Pouco romântica é a crônica da paixão cantada pela banda. As composições partem do rancor de "Dentro de Você" para entender o que acontece antes e depois da amargura. "A paixão é suja, diferente do amor. É erosiva, destrutiva. Corrói a pessoa que sente", explica o compositor.
POETA
O sobrenome "dos Anjos" do compositor carrega uma herança lírica: Márvio é "sobrinho-bisneto" do poeta simbolista Augusto dos Anjos (1884-1914), autor de versos como "Não sou capaz de amar mulher nenhuma/ Nem há mulher capaz de amar-me".
Do familiar, Márvio diz ter lido todos os poemas e declamado alguns, "uns 15 [sei] de cabeça". "É uma responsabilidade e uma tremenda sorte. É bonito e inspirador saber que tinha um gênio na família, mas nem nascer na mesma época do cara eu nasci", comenta.
Se há algum legado genealógico, ele cita sua predisposição ao "certo prazer" que teve de escrever sonetos decassílabos (com dez sílabas poéticas): "Fiz questão de dominar".
E se o tio-bisavô fosse roqueiro (e vivo), a que shows iria? "Ele definitivamente gostaria de compositores como Nick Cave e Leonard Cohen", arrisca Márvio.
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