Dólar volta a fechar abaixo de R$ 5,00 com apetite externo ao risco
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O dólar recuou pelo quinto pregão consecutivo nesta terça-feira, 14, e voltou a fechar abaixo do nível de R$ 5,00, embora tenha reduzido bastante o ritmo de queda à tarde em aparente movimento de ajuste técnico. Uma vez mais, os negócios no mercado de câmbio local foram ditados pelo ambiente externo, marcado por diminuição de prêmios de risco geopolítico e enfraquecimento da moeda americana.
Relatos positivos do vice-presidente dos EUA, JD Vance, na segunda-feira à noite, sobre negociações com o Irã no fim de semana sustentaram o otimismo dos investidores. À tarde, Donald Trump disse ao The New York Post que as tratativas com Teerã "podem ocorrer nos próximos dias" no Paquistão. As cotações do petróleo tombaram, com o contrato do Brent para junho - referência de preços para a Petrobras - encerrando o pregão em baixa de 4,6%, a US$ 94,79 o barril.
Após mínima de R$ 4,9727 pela manhã, o dólar operou entre R$ 4,98 e R$ 4,99 durante a segunda etapa de negócios. Com máxima de R$ 4,9953, a moeda americana terminou o dia em baixa de 0,06%, a R$ 4,9938 - novamente no menor valor de fechamento desde 27 de março de 2024. O dólar já acumula desvalorização de 3,57% em abril, após alta de 0,87% em março. No ano, as perdas são de 9,02%.
"Após uma queda tão expressiva, é natural que o mercado passe por um ajuste, com alguma recomposição de posições em dólar e demanda maior de importadores para aproveitar cotações menores. De outro lado, temos continuidade do fluxo externo", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, acrescentando que o mercado segue muito "sensível" a declarações de Trump sobre o conflito no Oriente Médio.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY rondava os 98,100 pontos no fim da tarde, em queda de 0,25%, após ter furado o piso dos 98,000 pontos pela manhã, quando tocou mínima aos 97,969 pontos. Entre divisas emergentes pares do real, destaque para o peso chileno, com ganhos superiores a 0,80 frente ao dólar.
Embora as atenções estejam voltadas ao conflito no Oriente Médio, a leitura bem abaixo das expectativas do índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) nos EUA em março contribuiu para a desvalorização global da moeda americana, ao reduzir temores de escalada inflacionária.
O diretor do Conselho Econômico Nacional dos EUA, Kevin Hassett, disse à tarde que vê espaço para o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) retomar o corte de juros, uma vez que vê impacto temporário do choque de energia sobre os preços.
O economista Paulo Gala avalia que o resultado do PPI "contribui para reduzir parte das preocupações inflacionárias, mas não altera substancialmente a percepção de que o Federal Reserve deve adotar uma postura cautelosa", postergando eventual retomada de corte de juros.
Gala lista três fatores, além da fraqueza global da moeda americana, que amparam as expectativas de continuidade do movimento de apreciação do real no curto prazo: a perspectiva de corte gradual da taxa Selic, que mantém um diferencial de juros elevado, o aumento do superávit comercial com a alta do petróleo e o fluxo de capital estrangeiro para ativos domésticos.
Em nota, a diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, a economista Solange Srour, atribui a apreciação do real ao movimento de diversificação global de portfólios e aos preços mais elevados de petróleo, que favorece economias exportadoras de commodities.
"Minha preocupação central não é o nível do câmbio em si, mas o ambiente político que ele tende a produzir. A apreciação cambial reduz a percepção de risco, acalma os mercados e, com isso, diminui a pressão por disciplina fiscal", afirma a economista.
Srour cita como exemplo a aprovação em primeiro turno da Câmara dos Deputados na Proposta de Emenda à Constituição 383/2017, conhecida como PEC do SUAS, que vincula constitucionalmente 1% da Receita Corrente Líquida da União, estados e municípios ao Sistema Único de Assistência Social.
"O real abaixo de R$ 5,00 pode transmitir uma sensação de conforto que não corresponde à nossa realidade. O câmbio apreciado não resolve o desequilíbrio estrutural", afirma a economista. "O risco é que esse alívio momentâneo abra espaço para decisões permanentes que tornem o ajuste futuro ainda mais difícil."