Operação Big Fish iniciou após tentativa de coação de delegado em Grandes Rios; entenda
Delegados Ricardo Monteiro de Toledo, Victor Hugo Torres Bento e André Garcia, da 17ª SDP, esclarecem detalhes de operação com alcance nacional
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A "Operação Big Fish", que resultou na prisão de 63 pessoas e no bloqueio de R$ 1,5 bilhão de um grupo criminoso de atuação nacional especializado em jogos de azar, teve início após um contraventor de Cianorte, no Noroeste do Paraná, tentar coagir o então delegado titular da Polícia Civil (PC-PR) em Grandes Rios, no Vale do Ivaí. A partir dessa postura do suspeito, a PC-PR começou a investigação que ganhou alcance estadual. Os detalhes da operação, realizada na semana passada, foram repassados nesta terça-feira (14) durante entrevista coletiva dos delegados Ricardo Monteiro de Toledo, Victor Hugo Torres Bento e André Garcia, da 17ª Subdivisão Policial (SDP), de Apucarana. Veja a entrevista
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O estopim para a megainvestigação ocorreu quando líderes da contravenção tentaram coagir a própria polícia. O delegado André Garcia explica que o caso começou a ser apurado após o delegado Ricardo Monteiro de Toledo, então titular de Grandes Rios, ser procurado por um contraventor que fazia a exploração do jogo de bicho em várias regiões do Paraná. "Naquela oportunidade, ele (contraventor), de certa forma, constrangeu o delegado de polícia no sentido de, de uma forma muito sutil, ameaçá-lo ou propor algum tipo de acordo escuso para que o jogo do bicho fosse explorado naquela região. Evidentemente o delegado não aceitou e deu início ali às investigações", assinalou André Garcia, destacando o papel fundamental do Ministério Público (MP) e do Judiciário de Cianorte para o resultado final da operação.
Uma força-tarefa acabou sendo formada e mapeou uma rede criminosa complexa. Além dos mandados de prisão, foram cumpridas 184 ordens judiciais de bloqueio de contas bancárias, visando ao sequestro de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. Também foi determinado o sequestro de 132 veículos (avaliados em mais de R$ 11 milhões), 111 imóveis (avaliados em mais de R$ 32,9 milhões) e mais de 100 cabeças de gado. Ainda, 21 sites de apostas ilegais foram retirados do ar.
O grupo se utilizava de uma fachada de normalidade, mas sustentava atividades criminosas. O delegado Victor Hugo Torres Bento reforçou a gravidade da contravenção. "Muitas vezes um simples jogo do bicho sustenta uma organização criminosa que, como bem demonstrado nas investigações, se valia de todos os meios para que continuasse existindo", diz. Para ocultar os lucros, a quadrilha desenvolveu, segundo o delegado, uma "engenharia muito sofisticada de lavagem de dinheiro, uma miríade de empresas, movimentações por meio de fintechs". A operação ocorreu em 27 cidades, incluindo Apucarana, onde um suspeito foi preso.
A investigação, segundo os delegados, revelou que a cúpula do esquema no Paraná, formada por irmãos de Cianorte, fez uma fusão com líderes do estado de Goiás. Juntos, eles criaram uma empresa que chegou a obter autorização judicial para explorar loterias estaduais no Rio de Janeiro e na Paraíba.
O coração tecnológico da quadrilha era uma empresa de TI em Cianorte, com cerca de 15 funcionários operando 24 horas por dia. Um dos principais diferenciais da organização era o uso intensivo de tecnologia, com destaque para o sistema denominado “Suni” A ferramenta funcionava como plataforma central de gestão, transmissão e controle das apostas ilegais realizadas por meio de máquinas POS (Point of Sale), integrando, em tempo real, as diversas ramificações da organização. O sistema era utilizado em pelo menos 14 estados, por dezenas de bancas de jogo do bicho, totalizando mais de 15 mil pontos de exploração.
Além do sistema “Suni”, a organização operava por meio de diversas plataformas digitais voltadas à exploração ilegal, incluindo jogo do bicho, máquinas caça-níquel, apostas esportivas e jogos de azar online, inclusive o popularmente conhecido “tigrinho”. Esses sistemas eram hospedados em servidores no exterior, o que dificultava a atuação dos órgãos de persecução penal e evidencia o elevado grau de sofisticação tecnológica do grupo.
"Isso demonstra a capilaridade desse grupo criminoso que se expandiu aqui do estado do Paraná para boa parte do país", acrescenta o delegado Ricardo Monteiro de Toledo.
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Além do jogo do bicho, a base tecnológica sustentava plataformas modernas. "Esse grupo criminoso era responsável não só pelo sistema de exploração do jogo do bicho, mas também por criar e dar a manutenção de diversas plataformas de diversos outros jogos de azar, como bets, jogo do tigrinho, e inúmeras outras plataformas. Inclusive, foi determinada judicialmente a derrubada de pelo menos 21 sites que foram identificados", relatou o delegado Ricardo.
O volume financeiro descoberto impressionou as autoridades. A polícia identificou movimentações superiores a R$ 2,1 bilhões em um período de quatro anos. A operação ocorreu de forma conjunta com o Ministério Público e continua em andamento para capturar 22 suspeitos que seguem foragidos.