Fãs de Apucarana e região relembram legado dos Mamonas Assassinas
Morte dos integrantes do grupo que marcou a década de 1990 completa 30 anos nesta segunda-feira (2)
Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline
Três décadas após o trágico acidente aéreo que encerrou a carreira dos Mamonas Assassinas em 2 de março de 1996, fãs da região de Apucarana (PR) falam sobre o impacto da tragédia e o legado deixado pelo grupo.
Na opinião do comerciante Edielson Marlon Hilário, 50 anos, morador de Novo Itacolomi, no Vale do Ivaí, a passagem da banda pela música brasileira foi curta, porém marcante o suficiente para atravessar gerações. Ele relata que o dia da morte dos integrantes ficou guardado em sua memória. “Foi muito triste. Eu me lembro do dia que eles morreram. Eu tinha lanchonete e recebi a notícia pela rádio. Aquele domingo acabou para mim”, recorda Hilário, que criou uma banda cover dos Mamonas Assassinas um ano após a tragédia.
“Naquela época eu era vocalista da Banda Virhu's e a gente tocava Vira-Vira, Robocop Gay, Pelados em Santos. Acertamos um show em Kaloré e o contratante queria fazer uma homenagem para os Mamonas com todas as músicas, roupas, performance. Ou seja, seríamos um cover”, conta o comerciante.
LEIA MAIS: Peça achada em exumação de Dinho não pertencia ao cantor, diz familiar
A banda ensaiou o repertório com ajuda de gravações em fitas K7 e CDs, realizando diversas apresentações na região. “Teve um fato bem legal que aconteceu em Sarandi, que nós fizemos um show no Dia das Crianças e precisamos de um cordão de isolamento naquele dia. Acho que todo o público estava carente pela perda tão trágica”, lembra o vocalista.
“Sempre quando eu subia no palco o pessoal me chamava de Dinho. Não pela aparência, mas pelo jeito de agir, expressar, espontâneo, fazendo o que gosta, e até hoje ainda eu, com 50 anos, o pessoal ainda pede pra cantar as músicas deles”, acrescenta Edielson, que voltou a encarnar o “personagem” em show recente na festa de aniversário de Novo Itacolomi.
Os Mamonas Assassinas ficaram famosos no Brasil em junho de 1995, logo após o lançamento de seu único álbum homônimo. Apesar de o lançamento oficial ser no dia 23, a banda estourou no dia seguinte, quando a rádio 89 FM tocou "Vira-Vira", vendendo 25 mil cópias nas primeiras 12 horas.
Hilário relata que ouviu a banda pela primeira vez na rádio e a primeira impressão não foi a melhor. “O locutor disse 'essa banda vai dar o que falar, está estourada em todas as rádios do Brasil'. Confesso que não gostei muito de primeira, não, porque quando eu era criança, tinha dançado a música Bate o Pé, do Roberto Leal, achei um insulto. Mas, depois, acostumei e me apaixonei por eles e até hoje para mim foi e sempre será a melhor banda irreverente, divertida e espontânea que o Brasil já teve”, afirma o fã.
O comerciante acredita que a banda deixou um legado inigualável. “Acho que nenhuma banda vai se igualar aos Mamonas, na verdade eu até hoje não vi nenhuma tentar ser igual a eles. Porque você não canta as músicas dos Mamonas, você se diverte”, conclui.
Fãs de Apucarana relembram irreverência
Em Apucarana, o professor de espanhol Jheferson José Correia, 37 anos, mantém vivas as lembranças do grupo que conheceu aos 9 anos. Para ele, a descoberta da banda representou um marco. “Eles não pareciam estrelas distantes em um palco; pareciam meus irmãos mais velhos fazendo uma bagunça deliciosa no meio da sala”, relata o professor. Segundo ele, o fascínio vinha da entrega e da alegria real que o quinteto demonstrava, usando figurinos e vozes diferentes para mostrar que a vida poderia ser encarada com diversão.
A notícia do acidente, recebida em um domingo, representou o fim da infância de muitos brasileiros. “A notícia do acidente foi o momento em que a infância de muita gente, inclusive a minha, sofreu um baque. Parecia que tínhamos perdido alguém do nosso próprio sangue”, relembra Jheferson. Durante aqueles dias, as conversas não eram de fãs, mas de pessoas que vivenciavam o luto de um familiar. Na época, aos 9 anos, o professor não compreendia as piadas de duplo sentido das canções, enxergando nas letras apenas liberdade, o que ele define como uma "bagunça do bem". Em sua casa, as músicas não sofriam censura por parte dos adultos. “Os Mamonas eram o antídoto para os dias difíceis. Eles faziam a gente esquecer a conta de luz alta e o preço das coisas subindo”, destaca.
📲Clique aqui para entrar no nosso grupo do WhatsApp e receber nossas notícias em primeira mão
Sobre o cenário atual, Jheferson avalia que, se surgissem hoje, os Mamonas seriam o maior fenômeno das redes sociais e um refúgio contra o clima de divisões. “Em um mundo de tantos cancelamentos e divisões, os Mamonas chegariam com aquela irreverência que une, não que separa”, pondera. Ele defende que a essência do grupo era a humanidade, o que permitiria uma adaptação inteligente aos novos tempos sem perder a doçura. Para o professor, o lugar deixado pela banda permanece vago porque a trajetória deles não foi baseada apenas em marketing. “Para ocupar o lugar deles, não basta ser engraçado ou tocar bem; tem que ter aquele brilho no olho de quem está realizando um sonho de infância junto com o povo”, finaliza.
A conexão de Jheferson com a banda é compartilhada por sua amiga Maiara Marangon, massoterapeuta de 40 anos, natural de Apucarana e que vive atualmente em Londres. Durante uma visita recente ao Brasil, ela foi ao cinema com o professor para assistir ao filme biográfico do grupo.
Maiara conheceu o quinteto também aos 9 anos, através do programa Domingão do Faustão, e se encantava com as vozes e a interação no palco. Assim como Jheferson, a massoterapeuta não notava as malícias nas letras durante a infância. “Creio que era um humor bobo e muito engraçado. Como criança, eu não entendia, como hoje, o duplo sentido”, recorda. As músicas tocavam livremente em sua residência. “Nunca censuraram. Acho que eles também achavam engraçado, menos minha avó, que se chamava Maria”, conta.
A massoterapeuta ressalta que o grupo era singular e que sua autenticidade dificilmente seria replicada da mesma forma. “Eles tinham uma autenticidade que era só deles. Não sei como seria hoje em dia”, avalia. Mesmo morando no exterior, Maiara mantém o hábito de escutar as canções no YouTube e apresentá-las nas reuniões familiares.
Últimas em Apucarana
Mais lidas no TNOnline
Últimas do TNOnline