Entre buracos e vias íngremes, cadeirantes pedem empatia no trânsito de Apucarana
Com obstáculos e rampas irregulares, pessoas com deficiência precisam transitar na rua na contramão para evitar acidentes
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A falta de acessibilidade nas calçadas de Apucarana tem transformado o trajeto de pessoas com deficiência em um verdadeiro desafio. Sem opções seguras e niveladas nos passeios públicos, cadeirantes são forçados a transitar pelo asfalto, quase sempre na contramão, para tentar prever o movimento dos veículos e evitar atropelamentos. A situação revela a luta diária de quem precisa se locomover, a falta de respeito dos motoristas e as dificuldades que o terreno da cidade traz para a gestão pública. O problema, que é antigo, ganhou novas proporções com a maior popularização das cadeiras motorizadas.
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A publicitária Marcia Regina Danjó, por exemplo, que se locomove com cadeira de rodas motorizada, argumenta que andar na contramão não é uma infração, mas uma estratégia de segurança. "Muitas pessoas estranham quando me veem circulando na contramão das ruas da cidade. Mas a explicação é simples: na maioria das vezes, não é uma escolha, é falta de opção", desabafa. Ela explica que a presença constante de buracos, degraus e postes no meio do caminho inviabiliza o uso da calçada. "Acontece de muitas pessoas passarem por mim, olharem com cara feia e questionarem. Se eu estou na contramão, provavelmente é porque a calçada não me deu passagem", afirma Marcia, ressaltando que a empatia de todos facilitaria a convivência no trânsito.
O perigo nas ruas se agrava com intervenções irregulares feitas sem padronização nos comércios e residências. A influenciadora digital Camila Tamiya, também cadeirante, já sofreu acidentes devido a essas armadilhas urbanas. "As calçadas são todas irregulares e boa parte das entradas de loja tem a rampa para o lado de fora, o que deixa a cadeira de rodas suspensa de lado. Já até caí por conta disso", relata. Ela cobra do poder público uma ação mais incisiva e representativa: "Gostaria de políticas públicas que pensem nas pessoas com deficiência com representatividade real, feitas por quem é PCD de verdade".
Descaso e falta de fiscalização
A luta por melhorias não é recente e ganha coro com as lideranças de classe. A vice-presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Apucarana (Adefiap) e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Eidiana Cristina Bernardes, reforça que o problema é crônico.
A representante aponta áreas críticas. "Se você andar ali na região central ou até mesmo na Avenida Central do Paraná, Avenida Aviação, a gente vê o desnível das calçadas, vê carros estacionados nas calçadas, onde deveria ter calçada não tem, o mato também invade na calçada”. Ela relata que a falta de infraestrutura obriga o uso das vias de rolagem, aumentando o risco de morte. "Por isso que a pessoa acaba utilizando, mesmo correndo risco, a via, porque a calçada não tem condição da pessoa com cadeira utilizar".
O que diz a prefeitura
A Prefeitura de Apucarana reconhece a gravidade da situação. O secretário municipal de Obras, Matheus Franciscon, afirma que a administração tem dialogado com a comunidade e já empenhou recursos para um pacote de melhorias. "A gente entende a realidade e simpatiza. A empresa licitada já foi comunicada e devemos iniciar nos próximos dias essas melhorias, fazendo guias rebaixadas e algumas calçadas novas em locais que eles mesmos pediram para nós", garante o secretário.
Apesar das iniciativas, o poder público esbarra nas características físicas da cidade. O secretário pondera que a topografia acidentada de Apucarana dificulta a adequação rápida e total das vias à norma técnica brasileira, que exige uma inclinação máxima de 8,33%. "Em muitos locais do município, é muito difícil você conseguir colocar uma rampa conforme a norma, sem falar na própria inclinação da rua. Tem lugar aqui que a gente vai ter inclinação de 22%, 24%, que é muito pesada", explica Franciscon.
Para tentar frear o avanço das irregularidades, o município passou a ser mais rigoroso com novos empreendimentos: "Hoje, no Habite-se, a gente cobra. Caso não seja feito, não liberamos a documentação, porque a trafegabilidade é uma exigência".
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