Leia a última edição Siga no Whatsapp
--°C | Apucarana
Euro
--
Dólar
--

Blog Rogério Ribeiro

publicidade
BLOG ROGÉRIO RIBEIRO

A volta a Keynes

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Telegram
Siga-nos Seguir no Google News
Grupos do WhatsApp

Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline

A volta a Keynes
Autor Foto: Ilustrativa/Freepik

Há um traço de farsa intelectual no Brasil contemporâneo que merece ser exposto sem delicadeza: de um lado, os liberais de rede social e, de outro, os socialistas de iPhone. Ambos falam muito em liberdade, justiça, mercado, povo, opressão e emancipação. Ambos ostentam repertório, vocabulário e segurança retórica. Ambos, com frequência, mostram fragilidades justamente no essencial: lógica, racionalidade e coerência prática.

O debate público ficou excessivamente intelectualizado na forma e dramaticamente empobrecido no conteúdo. Há muito antagonismo e nenhuma disposição real para o contraditório. Quase ninguém aceita a velha lição aristotélica de que a virtude política e moral não costuma morar nos extremos, mas no equilíbrio. O sujeito não quer compreender. Quer vencer. Não quer buscar o melhor arranjo social. Quer destruir moralmente o adversário.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Associe sua marca ao jornalismo sério e de credibilidade, anuncie no TNOnline.

No século XVII, consolidou-se o liberalismo clássico, marcado pela limitação da intervenção do Estado nas atividades produtivas. Após esse período se produziu riqueza extraordinária, mas também miséria urbana, jornadas desumanas e exploração brutal do trabalho, inclusive de mulheres e crianças. Foi nesse contexto que Karl Marx formulou sua crítica ao capitalismo, pregando o seu colapso e, logo após, veio a crise de 1929. Quando o colapso mostrou que mercados não se estabilizam sozinhos, surge Keynes propondo que o governo deve ter papel ativo na economia.

O curioso é que, décadas depois, a nova onda liberal ressurgiu com o rótulo de neoliberalismo, e depois reciclada em versões ainda mais histéricas que sonham com um Estado mínimo, ou quase inexistente. Em resposta, setores da esquerda passaram a defender um Estado hipertrofiado, como se a mera expansão da máquina pública fosse sinônimo de justiça social. Eis a tragédia: um lado finge que o Estado sempre atrapalha enquanto o outro finge que o Estado sempre salva.

O problema está na forma caricatural como parte desse pensamento tem sido apropriada na atualidade: para certos comentaristas, toda regulação é tratada como tirania, todo imposto é rotulado como confisco e toda política pública passa a ser denunciada como socialismo. Nessa visão o mercado aparece como uma entidade autossuficiente.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

As duas narrativas se desfazem com facilidade. A extrema esquerda não pode sustentar a defesa de um Estado hipertrofiado como se a administração pública efetiva revelasse, de forma generalizada, elevada eficiência, virtude institucional e superioridade técnica. Não revela. Com as devidas exceções, o setor público ainda enfrenta problemas recorrentes de baixa produtividade, apropriação corporativa, morosidade operacional e desperdício de recursos.

Já a extrema direita cultiva um discurso antiestatal ao mesmo tempo em que muitos de seus expoentes transitam continuamente por cargos públicos, valendo-se justamente da máquina estatal para atacar o Estado. E há mais: diversos defensores do novo liberalismo, embora condenem a intervenção estatal no plano retórico, recorrem constantemente a subsídios, financiamentos favorecidos, benefícios fiscais e mecanismos de proteção voltados aos próprios interesses.

No fundo, o que existe é um emaranhado de incoerências embaladas como convicção. Talvez tenha chegado a hora de abandonar caricaturas, reler Keynes com seriedade e responsabilidade e recuperar Aristóteles com humildade. Nem o mercado é um deus, nem o Estado é um redentor. Uma sociedade justa, fraterna, produtiva e rica não nascerá da idolatria de extremos, mas da coragem de enfrentar essas contradições com honestidade intelectual e responsabilidade prática.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Gostou da matéria? Compartilhe!

Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Email

Últimas em Blog Rogério Ribeiro

publicidade

Mais lidas no TNOnline

publicidade

Últimas do TNOnline

TNOnline TV