A Cruz que exibimos e o Cristo que evitamos
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Há um tipo de silêncio que não é ausência de som, mas excesso de sentido. A chamada Sexta-feira Santa habita esse silêncio. Não como um rito vazio, repetido por tradição, mas como uma memória incômoda: a de um homem que sangrou por aquilo que pregava e que, mesmo assim, escolheu amar até o limite do que o corpo suportava.
Falar de Jesus Cristo sem considerar a materialidade da sua dor é um exercício de conveniência. Sua história não é feita apenas de parábolas suaves ou frases reconfortantes, mas de carne ferida, de abandono público, de injustiça institucionalizada. Há um peso histórico e simbólico naquela cruz que não pode ser romantizado sem que se cometa, no mínimo, uma violência intelectual.
O que se celebra, afinal, quando se fala em sacrifício?
Porque o Cristo histórico não morreu por uma ideia abstrata de bondade genérica. Ele morreu por confrontar estruturas, por expor hipocrisias, por recusar o conforto da omissão. Seu amor não era passivo, nem decorativo; era ativo, incômodo, profundamente político no sentido mais essencial do termo, pois dizia respeito à forma como os homens se relacionam entre si. E é aqui que o contraste se torna indigesto.
Ao longo dos séculos, construiu-se um Cristo palatável, ajustado às necessidades de cada época. Um Cristo que confirma convicções, que legitima posições, que serve de selo moral para discursos que, muitas vezes, fariam o próprio Jesus virar o rosto. A dor foi transformada em símbolo estético, e o amor, em slogan. Mas há uma diferença abissal entre contemplar a cruz e compreender o que ela exige.
A ignomínia humana, que naquele tempo se expressou em açoites, escárnio e condenação pública, hoje assume formas mais sutis, porém não menos violentas. Ela se manifesta na facilidade com que se instrumentaliza o nome de Cristo para justificar exclusões, na rapidez com que se condena o outro em nome de uma suposta pureza, na habilidade quase artística de adaptar o Evangelho às próprias conveniências.
O que antes era um tribunal de pedra, hoje se apresenta em tribunas digitais. O que antes eram gritos de condenação, hoje se travestem de opiniões firmes e moralmente superiores. Mudam-se os cenários, preserva-se o impulso: o de julgar sem o peso da responsabilidade, o de condenar sem a experiência da misericórdia. E, enquanto isso, o amor que levou Cristo à cruz vai sendo reduzido a um conceito confortável, domesticado, incapaz de ferir o orgulho de quem o professa.
Há algo profundamente desconcertante em perceber que o mesmo gesto que deveria inspirar humildade tem sido usado para sustentar arrogâncias. Que o mesmo sacrifício que revela a radicalidade do amor tem sido invocado para alimentar discursos de exclusão. Que a memória de um homem que acolheu marginalizados serve, hoje, para legitimar novas formas de marginalização.
Não se trata de negar a fé, mas de resgatá-la de sua versão mais conveniente.
Porque a cruz, quando levada a sério, não permite neutralidade. Ela exige coerência. Exige que o amor deixe de ser um ornamento discursivo e passe a ser um princípio operativo. Exige que a fé não seja apenas afirmada, mas encarnada, mesmo quando isso implica perda, desconforto e exposição. E talvez seja justamente isso que mais se evita.
Afinal, é muito mais fácil celebrar a ressurreição do que confrontar a crucificação. É mais agradável falar de vitória do que reconhecer a própria participação, ainda que indireta, nas dinâmicas que continuam produzindo dor, exclusão e injustiça.
A Sexta-feira Santa, portanto, não é apenas memória. É diagnóstico.
Ela revela não apenas o que fizeram com Cristo, mas o que fazemos com aquilo que Ele representou. Mostra o abismo entre o amor que foi vivido até as últimas consequências e o amor que, hoje, frequentemente se limita ao campo das intenções declaradas. E, diante desse abismo, talvez a pergunta mais honesta não seja se acreditamos n’Ele, mas se estamos dispostos a suportar o peso real de segui-lo.
Porque, se o Cristo que dizemos amar não encontra eco nas nossas práticas, se o sacrifício que reverenciamos não altera a forma como tratamos o outro, se a cruz permanece apenas como símbolo e não como exigência... então há algo profundamente equivocado não na história que nos foi legada, mas na forma como escolhemos contá-la a nós mesmos.