Feira do Produtor, quase 50 anos de sabores e histórias
Hortifrútis fresquinhos, pastel feito na hora e cheiro de café moído. Feira de Apucarana é uma tradição que reúne gerações
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A Feira do Produtor é um ponto de encontro e um marco de sabores na história de Apucarana. Afinal de contas, o centro de compras faz parte da tradição do apucaranense há quase 50 anos. O que mudou com o tempo foram os locais: hoje situada no Espaço das Feiras, ela já esteve também na Praça do Redondo, no Lagoão, no Terminal Urbano e em diferentes ruas da área central. Contudo, desde 1978, ano de sua fundação, a essência permanece a mesma: grande variedade e corredores sempre movimentados.
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Atualmente, a Feira do Produtor acontece durante as manhãs de quartas-feiras, sábados e domingos, reunindo produtores de diversos nichos — dos inovadores, como o bolo de pote, aos mais tradicionais, como hortifrútis, embutidos e flores.
Entre os veteranos está Lúcio Carmine Cilenti, 51 anos, que comanda as vendas de café e cereais. Ele frequenta o local desde que nasceu, seguindo os passos do pai, Orazio Cilenti, um dos pioneiros do espaço. “Meu pai fundou essa feira junto com a turma dos Baganha. Crescemos aprendendo o ofício. Meu meio de sobrevivência hoje é este: a feira e o meu comércio. Como todos os produtores aqui, colhemos e vendemos o produto fresquinho, direto para o consumidor. Nossa vida é a feira”, afirma Lúcio.
Ao longo das décadas, ele acompanhou de perto cada mudança de endereço e a evolução da Feira do Produtor. “Tudo foi melhorando cada vez mais”, relembra o feirante, citando a diversidade atual de produtos.
Retorno às raízes e sustentabilidade
Se a tradição se mantém com famílias pioneiras, o espaço também abre portas para quem decide retornar às origens com novas perspectivas. O engenheiro agrônomo Rafael Saragoza Garcia é um exemplo dessa movimentação. Após atuar por 10 anos em uma empresa em Curitiba, ele optou por voltar a Apucarana para empreender em algo que refletisse seus valores pessoais. “Vi a necessidade de retornar para minha terra natal, onde estão minhas raízes, e trabalhar com produtos em que eu realmente acredito”, afirma.
Rafael, que hoje aplica o conceito de agrofloresta em sua produção, traz para a feira uma filosofia que conecta a saúde da terra à saúde do consumidor. Para o produtor, o trabalho na feira vai muito além da nomenclatura "orgânico", pois trata-se de um ciclo de bem-estar que começa no tratamento do chão. “O solo precisa estar sadio para que a planta cresça forte. Assim, entregamos um alimento que realmente faz bem para quem consome. É uma busca por qualidade de vida através do que plantamos”, explica o agrônomo.
O desafio de introduzir conceitos de sustentabilidade e preservação em um ambiente tão tradicional tem sido recompensado pela receptividade do público. Rafael defende que o futuro do campo e da cidade depende da consciência ambiental. “A gente precisa plantar florestas, cuidar da nossa água e do nosso ar. Os frequentadores da feira recebem isso com alegria porque percebem que há uma preocupação real com a saúde deles e com o equilíbrio do planeta”, destaca.
Em meio às compras, pausa para o pastel
Além de centro de compras, a Feira do Produtor é também um espaço de lazer. Pastel, suco, caldo de cana, bolo: tem quem vá ao local apenas pela experiência gastronômica. A feirante Valdelice da Silva e sua família comandam há cerca de cinco anos um box de pastel, um dos mais movimentados durante todas as manhãs. “Ultimamente o ritmo tem sido esse, de muita correria. Já faz um bom tempo que estamos nesse movimento intenso, graças a Deus!”, celebra a feirante.
Valdelice, que também oferece uma variedade de salgados, revela que o segredo para manter a fidelidade da clientela vai além da fritura na hora. O diferencial está em uma raiz tipicamente brasileira. “Acredito que o nosso segredo seja o salgado de mandioca. A coxinha e os demais itens são todos feitos com essa base. É o que o público mais procura”, afirma.
Além dos feirantes, quem mantém viva a tradição são os moradores de Apucarana, que fazem da feira parte da rotina. É o caso da massoterapeuta Rosângela Rodrigues, de 52 anos, que acompanha esse costume desde a infância. “Já vinha com a minha avó e meu avô. Tínhamos o costume de vir buscar as verduras e comer o pastel. Hoje eu já sou avó e trago o meu neto. É um ambiente muito gostoso e familiar”, conta.
Essa tradição de buscar o alimento direto da terra é o que motiva o aposentado Augusto Beletato a marcar presença fiel ao menos uma vez por semana. Para ele, a diferença em relação aos mercados convencionais está na origem do que leva para casa. “É uma coisa muito boa para nós. O produto é fresquinho, vem direto da lavoura. Isso faz toda a diferença”, resume.
Trilha sonora especial
Mas a Feira do Produtor não é feita apenas de vendas. Ela também é composta, sobretudo, por personagens que dão vida ao ambiente. No grande corredor do Espaço das Feiras, a correria das vendas ganha uma trilha sonora especial com a voz do cantor Alcino José da Silva, que marca presença por lá há cerca de dois anos.
"Tem um ano e meio que eu estou aqui cantando com o pessoal. Eu fui muito bem aceito por todo mundo aqui e, por esse motivo, continuo cantando. Enquanto puder e enquanto tiver gente por aí prestigiando o meu trabalho, eu vou estar aqui para cantar para eles", disse o cantor.
Aos 74 anos de idade, Alcino chega cedo e só encerra a apresentação por volta das 11 horas. Para ele, a disposição vem da gratidão e da vitalidade. "O segredo para estar sempre aqui é a saúde que eu tenho. Primeiramente, eu tenho que agradecer a Deus, porque tem muita gente que chega aos 74 anos e já está 'entregando os pontos', né? Mas eu não, eu sinto que estou começando a viver agora”, revelou o artista, também conhecido como “O Cantor das Estrelas”.
Com sete CDs gravados, ele domina o repertório sertanejo e sabe exatamente o que o público espera ouvir entre uma compra e outra. “A música que não pode faltar de jeito nenhum é ‘Amargurado’, de Tião Carreiro e Pardinho, e também ‘Boate Azul’. Eu toco o que o povo gosta”, afirma Alcino.
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