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CAPITAL DO BONÉ

Entre agulhas e tecnologia: como o bordado fez de Apucarana uma potência têxtil

Máquinas de até R$ 550 mil, técnicas em 3D e alta demanda convivem com a escassez de operadores no setor que sustenta a Capital Nacional do Boné

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O som é constante, metálico e ritmado. Dentro das fábricas de Apucarana, no norte do Paraná, o barulho das máquinas de bordado marca o compasso de uma indústria que moldou a identidade econômica da cidade. Grandes, imponentes e hipnotizantes, elas são responsáveis pelo acabamento que agrega valor à bonés, camisetas e jeans, produtos que consolidaram o município, aos 82 anos, como a Capital Nacional do Boné.

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							Entre agulhas e tecnologia: como o bordado fez de Apucarana uma potência têxtil
AutorFoto: Lis Kato/TNOnline

“O bordado sempre foi o acabamento nobre da peça. É ele que transforma um produto comum em algo diferenciado”, resume o empresário Luciano Fortuna, da Mab Fortuna.

Por trás de cada logotipo em relevo ou detalhe em 3D existe uma cadeia produtiva que se sofisticou ao longo das últimas três décadas. A história do bordado industrial em Apucarana começa no fim da década de 1980, quando Antônio Carlos Machado, conhecido como “Macarrão”, teve contato com a tecnologia durante uma viagem à Argentina.

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							Entre agulhas e tecnologia: como o bordado fez de Apucarana uma potência têxtil
AutorFoto: Lis Kato/TNOnline

“Eu vi uma máquina de uma cabeça funcionando em Buenos Aires e fiquei encantado. Voltei decidido a trazer aquilo para Apucarana”, relembra. Segundo ele, a iniciativa ganhou força ao convencer os empresários Jaime Dionizio Ramos e Cláudio Carvalho, da extinta Cotton’s, primeira fábrica de bonés da cidade. “Falei para eles: ‘vamos trazer para incrementar’. Importamos uma Melco de quatro cabeças dos Estados Unidos, e aquilo mudou tudo”, conta.

As ‘cabeças’ a que Macarrão se refere correspondem à capacidade das máquinas, que bordam simultaneamente. Cada cabeça é uma estação de bordado, onde ficam acopladas as agulhas, assim, quanto mais cabeças a máquina, maior a capacidade produtiva das bordadeiras. A cabeça de bordadeira industrial pode entre 12 agulhas e 15 agulhas, permitindo usar várias cores de linha simultaneamente para bordados mais complexos.

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A chegada do equipamento foi um divisor de águas para a indústria local. Além de agregar valor às peças, a tecnologia abriu um horizonte de possibilidades em termos de design, exclusividade e criação. “O bordado foi o nosso ‘plus’. Ele colocou Apucarana em igualdade com mercados internacionais. Se eu disser que não sinto orgulho disso, estarei mentindo”, afirma Macarrão.

Tecnologia em evolução



							Entre agulhas e tecnologia: como o bordado fez de Apucarana uma potência têxtil
AutorEmpresário Luciano Fortuna se especializou na comercialização de bordadeiras - Foto: Lis Kato/TNOnline


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							Entre agulhas e tecnologia: como o bordado fez de Apucarana uma potência têxtil
AutorBordadeiras tem até 15 agulhas: rapidez e precisão - Foto: Lis Kato/TNOnline

A família Fortuna – nome por trás de marcas como a Titus - também foi pioneira. Cansados de enviar peças para serem bordadas em São Paulo, Abigail e Tuca Fortuna investiram em maquinário próprio no início dos anos 90. A chegada das máquinas encurtou distâncias e foi fundamental para reduzir custos e tornar o polo de confecções mais competitivo e especializado.

A iniciativa deu tão certo que eles se tornaram representantes estaduais da marca japonesa Barudan, uma das empresas mais respeitadas do mundo em bordado industrial.

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"Hoje, só da nossa marca, existem mais de 700 máquinas instaladas em Apucarana. Temos clientes com parques industriais de mais de 50 máquinas", destaca Luciano Fortuna, A tecnologia avançou rapidamente. Máquinas de 12 cabeças, padrão para alta produtividade, custam cerca de R$ 550 mil. Há equipamentos capazes de bordar sobre E.V.A. de até 7 milímetros sem deformar o material, criando os famosos bonés de aba alta com relevo 3D. Apucarana concentra duas das três máquinas existentes no Brasil com essa capacidade.

“O software evoluiu muito. Hoje conseguimos criar efeitos de movimento, profundidade e leveza que antes eram impossíveis”, explica Luciano. “O jeans bordado, principalmente no estilo country, está em alta e agrega muito valor à peça”, destaca o empresário.

O desafio da mão de obra


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							Entre agulhas e tecnologia: como o bordado fez de Apucarana uma potência têxtil
AutorEmpresário Chico Angeluci começou como operador e hoje comanda equipe de funcionários - Foto: Lis Kato/TNOnline

Apesar do alto nível tecnológico e da demanda crescente, o setor enfrenta um paradoxo: faltam profissionais qualificados para operar as máquinas. “O nosso maior desafio hoje não é o equipamento, é a mão de obra”, afirma Luciano Fortuna. “Temos pedidos, temos máquinas modernas, mas não temos operadores suficientes”, comenta.

A avaliação é compartilhada por Luís Francisco Angeluci, o Chico, proprietário da Quality Bordados. Com quase 50 funcionários e 24 anos de mercado, ele acompanha de perto a dificuldade de contratação. “É um problema mundial. A nova geração prefere o computador ao chão de fábrica”, analisa. “Por isso, estamos resgatando funcionários antigos, de 40, 50 anos, que já tinham deixado o setor”, afirma.

A trajetória de Chico é um exemplo do impacto desse maquinário na indústria da confecção. Antes de comandar seu próprio negócio, ele começou a atividade como operador de bordado aos 20 anos, buscando renda extra fora da temporada de uma sorveteria que ele tinha na época. “Eu entrei para complementar o ganho e acabei encontrando uma profissão”, conta. Com o tempo foi adquirindo máquinas e trocou o sorvete pelos bordados. Hoje, como empresário, ele observa que o perfil do operador mudou. “Não é só obedecer à ordem. É cumprir horário, manter qualidade e ser parceiro da empresa”, diz.

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Máquinas nas mãos de quem sabe



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AutorLuzia Cândido é operadora de bordadeira há mais de vinte anos - Foto: Lis Kato/TNOnline

São justamente esses profissionais experientes que sustentam o padrão de excelência que projetou Apucarana. Luzia Cândido, de 52 anos, opera máquinas de bordado há 21 anos na mesma empresa, a Blue Ocean. Ela acompanhou de perto a transição das máquinas manuais para os painéis digitais atuais.

“No começo era bem complicado, principalmente para bordar boné fechado”, lembra. “Mas a gente aprendeu, se adaptou e superou”, conta. Para Luzia, o trabalho foi decisivo em sua trajetória pessoal. “Conquistei tudo na minha vida trabalhando aqui”, afirma.

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Eleita funcionária destaque, ela será homenageada nas comemorações do Dia do Boné, em 31 de janeiro. Luzia define o ambiente da fábrica como um espaço de pertencimento. “Aqui virou minha segunda casa. É uma família”, diz.

Para enfrentar o gargalo da mão de obra, o setor aposta na capacitação. Parcerias com o Senai passaram a oferecer cursos em diferentes níveis, com uso de maquinário atualizado. “Capacitar é a única saída”, defende Luciano Fortuna. “Muitas empresas terceirizam o bordado não só pelo custo da máquina, mas pela dificuldade de gestão dessa mão de obra”, comenta.

Apesar dos desafios, a expectativa é de crescimento. Com a Copa do Mundo de 2026, a demanda por bonés promocionais e camisetas deve aumentar significativamente. A indústria local, que já diversificou para o jeans e a moda country, se prepara para mais um ciclo.

“O bordado não acaba”, sentencia Chico Angeluci. “Ele só cresce”, acredita. Em meio a máquinas de meio milhão de reais e softwares cada vez mais sofisticados, Apucarana segue provando que, no fim das contas, o sucesso da produção ainda depende do olhar atento, da experiência e da sensibilidade de quem conduz o preciso sobe e desce das agulhas.

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