Cultura do hip hop torna cidade uma "galeria a céu aberto"
Grafite transforma muros em identidade cultural e projeta artistas de Apucarana para o Brasil e o mundo
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Quem circula por Apucarana percebe que a cidade fala por imagens. Em muros antes anônimos, surgem rostos, cores, símbolos e mensagens que transformaram o espaço urbano em uma galeria a céu aberto. O grafite deixou de ser intervenção pontual e passou a integrar a identidade visual do município, que hoje é referência em arte urbana no norte do Paraná.
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Esse movimento tem raízes profundas. Ele nasce da cultura Hip Hop, cresce na ocupação coletiva dos espaços públicos e se fortalece na união entre artistas, eventos independentes e diferentes manifestações culturais. Nomes como Zion, Mancha, Bacuri, Sayuri Mina e Mônica Ishiba ajudam a contar essa história, marcada por pertencimento, resistência e projeção nacional e internacional.
Para o grafiteiro Carlos José da Silva Júnior, conhecido como Mancha, um dos protagonistas dessa transformação, o reconhecimento de Apucarana como polo da arte urbana não aconteceu por acaso. É resultado de uma construção coletiva que atravessa décadas.
“Apucarana sempre foi muito forte na rima, no break e no grafite. O movimento era muito unido, juntando DJs, MCs e grafiteiros. Foi essa união que formou vários artistas que hoje brilham na cidade e se destacam no Brasil e no mundo”, afirma.
A trajetória do próprio Mancha reflete esse percurso. Ele começou no break aos 13 anos, migrou para o grafite e encontrou na rua um espaço de diálogo direto com a cidade. Para ele, pintar muros é também ressignificar estruturas esquecidas.
Um dos exemplos mais conhecidos é a intervenção em um antigo pilar de semáforo desativado, na Avenida Curitiba, transformado em ponto de referência urbana e até cenário de jogos online.
“Eu chamo isso de desconstrução. É pegar algo que era só concreto e transformar em arte. Se você pinta uma árvore num pilar, para quem olha, aquilo deixa de ser apenas construção. A cidade muda”, reflete.
A força do grafite em Apucarana também está na capacidade de diálogo com outras tribos urbanas. Skatistas, praticantes de basquete de rua, poetas, músicos e artistas do rock ajudaram a criar um ambiente fértil para a arte florescer fora dos espaços institucionais.
Essa ocupação orgânica fez com que regiões como o entorno do Colégio Nilo Cairo, o Lagoão, a Praça do CEU e fachadas de edifícios se tornassem pontos de referência visual. Não são apenas murais: são narrativas espalhadas pela cidade em grandes obras coletivas. Vários desses pontos viraram instalações em festivais de grafite, eventos que reuniram artistas locais e de outras cidades.
“A cidade seria totalmente cinza sem a arte urbana. Com a arte, ela ganha estilo, identidade e traz um pouco de amor para quem passa”, resume Mancha.
Quem são os artistas que colorem Apucarana
Zion – Realismo que cruza fronteiras
Reconhecido pelo realismo técnico e murais monumentais, Zion leva a arte de Apucarana para o mundo. Já participou de grandes festivais internacionais, como o Urban Giants Festival, em Milão, e o Meeting of Styles, na Alemanha, representando o Brasil.
Suas obras retratam figuras icônicas como Pelé e Ayrton Senna, elementos da natureza como a arara, símbolo de liberdade e temas religiosos, a exemplo do Leão de Judá. Além dos muros, também atua em painéis, telas e ambientes corporativos, ampliando o alcance do grafite para além da rua.
Mônica Ishiba – Emoção, luz e autoconhecimento
Artista visual e muralista autodidata, Mônica Ishiba constrói uma obra marcada por luz, sombra e emoção. Seus murais exploram o universo interno, o simbolismo das portas, a esperança e o autoconhecimento.
Em 2025, levou o nome de Apucarana a um festival internacional de grafite na Holanda, com apoio do Fundo Municipal de Cultura. Além do muralismo, também atua como estilista de noivas e festas, conectando arte e realização de sonhos em diferentes linguagens.
Bacuri – Arte como ruptura e resistência
Radicado em Apucarana desde 2000, Bacuri constrói uma trajetória que une arte urbana, memória e crítica social. Iniciou na pixação nos anos 1990, passou pelo grafite e, desde 2016, encontrou no stencil sua principal linguagem.
Ex-costureiro da indústria local, transforma essa vivência em obra. É idealizador do documentário “Entrefios: A Vida Por Trás da Costura”, que dá visibilidade a trabalhadores invisibilizados da cadeia têxtil. Sua arte subverte a lógica elitista dos espaços tradicionais e utiliza materiais reciclados como gesto político e estético.
Sayuri Mina – Muros que narram a força feminina
Nascida em Apucarana, Sayuri Mina é grafiteira desde 2017 e transforma muros em narrativas de empoderamento feminino. Com estilo realista, retrata mulheres fortes, expressivas e simbólicas.
Formada em Pedagogia e licenciada em Artes, atua como professora na rede municipal de ensino, conciliando educação e produção artística. Sua obra carrega vivência, sensibilidade e reflexão sobre o lugar da mulher na sociedade.
Mancha, do break ao grafite
Carlos José da Silva Júnior, conhecido como Mancha, começou no break aos 13 anos e depois se encontrou no grafite. Para ele, a arte urbana vai muito além da estética nos muros da cidade: é uma ferramenta de educação e mudança de vida.
Atuando como artista urbano desde 2001, Mancha consolidou uma carreira que transita entre a sofisticação técnica do realismo e o impacto bruto da arte social. "Cada detalhe da minha arte tem um pedaço meu", afirma o grafiteiro em seu portfólio, destacando a conexão pessoal depositada em cada mural. Por muitos anos, Mancha atuou como professor de grafite em projetos sociais e continua a ministrar workshops e palestras na área.
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