Bosque Municipal, uma história de mais de 60 anos
Refúgio de animais, reserva ambiental e moradia, área verde dentro da cidade se transformou ao longo dos anos
Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline
Antes de se tornar um dos principais cartões-postais da cidade, o Bosque Municipal de Apucarana era uma pequena amostra preservada de mata nativa do Norte paranaense, quase sem intervenção humana. Foi ali, entre árvores, trilhas improvisadas e uma casa simples de madeira, que uma família ajudou a transformar o espaço na área pública de preservação e lazer que hoje habita a memória coletiva da cidade. A história do Bosque Municipal se confunde com a trajetória da família de Elizardo Dias, o primeiro caseiro do local, e das gerações que cresceram literalmente dentro dele.
-LEIA MAIS: Cultura do hip hop torna cidade uma "galeria a céu aberto"
Criado em 1963, o espaço situado no Jardim São Pedro conta com 28 mil metros quadrados. Pouco tempo depois, em 13 de outubro de 1964, Elizardo Dias teve sua carteira de trabalho assinada pela Prefeitura de Apucarana — o único registro formal de sua vida profissional. Maria de Fátima Ribeiro Caldas, 67 anos, filha de Elizardo, conta que a proposta da administração da época era desafiadora: morar com a família em uma casa de madeira dentro da área verde para ajudar a abrir o Bosque Municipal de forma adequada e estruturada para a população.
Com um salário de 250 cruzeiros por mês, Elizardo aceitou a missão. A residência, que tinha apenas quatro cômodos e foi desmanchada recentemente após mais de cinco décadas de histórias, tornou-se o lar da família. Conhecido como "Barbudo", Elizardo começou roçando o mato fechado, construindo churrasqueiras, cercando o terreno e plantando árvores — como as paineiras que ainda hoje se erguem imponentes na entrada, próximas ao estacionamento. “Elas foram plantadas com semente”, relembra a neta.
Naquela época, Maria de Fátima tinha apenas seis anos. “Foi uma delícia crescer e criar meus filhos lá”, conta. Dois de seus irmãos nasceram naquela mesma casa.
Com o passar dos anos, o Bosque Municipal ganhou forma e função. No início, o local não abrigava fauna exótica. Segundo Maria de Fátima, os animais chegaram quando ela já tinha cerca de 12 anos. “Primeiro, chegaram os macaquinhos. Eles ficaram cerca de três dias na minha casa até terminarem os viveiros”, explica.
Por muito tempo, Elizardo foi o único responsável pela manutenção do local. Em 1979, o trabalho passou a ser dividido com o genro Idacir Ribeiro Caldas, marido de Maria de Fátima, que ficou conhecido como o "Darci do Bosque". Ele faleceu no ano passado, aposentado das funções de caseiro, mas frequentador assíduo do espaço até o fim.
O apego de Idacir ao bosque era notório. “Meu pai tinha muito ciúme do Bosque. Não podia pisar na grama, por exemplo”, conta a filha e costureira Edicléia Ribeiro Caldas, 44 anos. Segundo ela, muitas vezes Darci tirava dinheiro do próprio bolso para comprar comida para os bichos. Quando vieram as mudanças administrativas e regras mais rígidas, como horários restritos para a alimentação, ele sofria. “Achava que os animais estavam gritando de fome”, relembra.
A rotina começava cedo. “Meu pai levantava às cinco da manhã e às seis já estava no Bosque, picando os alimentos”, diz Edicléia. O vínculo era tão forte que até os macacos reconheciam Idacir. “Eles fugiam e, mesmo depois dele aposentado, o pessoal o chamava para ajudar na captura. Ele não tinha medo. Existia um amor muito grande”, comenta.
A própria Edicléia também cresceu no Bosque, onde uma segunda casa foi construída para seus pais. “Foi o meu quintal. A gente brincava de casinha, de perdido, colocava rede para jogar vôlei no estacionamento. Minha infância foi lá, o dia inteirinho dentro do Bosque. Todo mundo teve uma vida lá”, diz.
Entre as recordações, a costureira destaca a diversidade de animais. “Eram muitos! Tucanos, araras, papagaios, galinhas, marrecos, patos, tartarugas, macacos, gansos e até mesmo jacarés”, lista. “Lembro que eles comiam carne e a gente levava para eles. Eram jacarés velhos, debilitados, então eram mansinhos, não nos atacavam.”
Transformações ao longo dos anos
Nas últimas décadas, o refúgio verde em pleno perímetro urbano de Apucarana passou por inúmeras reformulações. Em 1970, foi considerado área inviolável por lei municipal. Cerca de 30 anos depois, em 1999, recebeu o nome de Bosque Municipal Mercedes da Silva Moreno. No entanto, a denominação nunca "pegou" entre a população.
Em 28 de janeiro de 2006, o local foi reinaugurado. Originalmente, o espaço se chamaria apenas Parque das Aves, mas como a nomenclatura já era marca registrada do famoso parque em Foz do Iguaçu, a administração do então prefeito Valter Aparecido Pegorer o batizou de Bosque Municipal Parque das Aves.
Antes dessa fase, o número de animais havia sido reduzido, restando apenas dois viveiros: o dos macacos e o das araras. A bióloga Thayna Puzzi, que trabalhou na Secretaria do Meio Ambiente de Apucarana (Sema) à época, relata o longo processo burocrático para reabrir o espaço e receber novos bichos. “Eram muitos regulamentos; os viveiros, guarda-corpos e escadas precisavam ter alturas específicas. Demorou bastante até tudo estar adequado”, explica.
O objetivo não era ser apenas um parque, mas um minizoológico. Com a licença do Ibama em mãos, a equipe buscou centros de reabilitação para transferir animais que não podiam retornar à natureza. “Imagina a gente em uma Kombi, com gaiolas de seriemas, papagaios, periquitos, tucanos e bugios, voltando de Tijucas do Sul. Era emocionante!”, relembra Thayna. O trabalho era intenso: ao chegar em Apucarana, os profissionais tratavam os animais e, às 7h da manhã seguinte, já estavam no Bosque para alocá-los nos viveiros e acompanhar a adaptação. “Foi difícil, perdemos alguns animais que não se adaptaram. Mas o Centro já havia alertado que seria complicado, pois vinham de situações difíceis”, complementa.
Fechamentos, reaberturas e novas funções
Com o tempo, o Bosque ganhou a função de educação ambiental. Alunos de escolas públicas e privadas visitavam o local para aprender sobre sustentabilidade e preservação. Nessa época, a reserva abrigou mais de 170 animais de diversas espécies, funcionando também como centro de tratamento para animais silvestres resgatados ou apreendidos.
Em 2016, porém, o Bosque foi fechado após intervenção do Ibama, que exigiu mudanças estruturais. Um ano depois, a maioria dos bichos foi retirada. “Havia os animais que já estavam lá, mas sempre chegavam novos, machucados. Cuidávamos deles todos os dias, muitas vezes separados até podermos colocá-los nos viveiros. Quem gosta de bicho, acaba se apegando”, relembra a bióloga Angela Juliana Eckardt.
Após mais de quatro anos fechado, o espaço passou por readequações e reabriu no início de 2021 com melhorias como pintura, paisagismo, recuperação de gaiolas e novo mobiliário urbano. O local recebeu recapeamento asfáltico nas passarelas e um parque infantil. Alguns animais permaneceram, com permissão ambiental, incluindo coelhos, pavões, macacos-prego e aves exóticas.
Revitalização para novo licenciamento
Símbolo da relação entre a cidade e a natureza, o Bosque Municipal entrou em 2025 em uma nova fase. Em outubro, foi fechado temporariamente para obras de revitalização orçadas em cerca de R$ 500 mil (recursos próprios), visando tornar o local acessível e apto a abrigar novamente animais silvestres.
A intervenção, autorizada pelo prefeito Rodolfo Mota, inclui a construção de 11 novos viveiros, rota acessível e um parque infantil temático em formato de avião. Segundo a Prefeitura, o fechamento visa agilizar os serviços e recuperar a licença do Ibama. O projeto prevê a modernização dos viveiros e o alargamento das calçadas conforme exigências técnicas. “Um dos principais objetivos é poder resgatar animais como as araras, que eram um marco do local”, declara o secretário municipal de Meio Ambiente, Diego Silva.
Uma segunda fase de reestruturação está prevista para os espaços administrativos, biblioteca e ambulatório. A expectativa é que a primeira fase seja entregue ainda no primeiro trimestre de 2026, atraindo cerca de 40 mil visitantes ao longo do ano. Outro atrativo histórico do local é a Casa do Pioneiro. Datada de 1938, a residência pertenceu a Benevides Mesquita, pioneiro considerado o primeiro morador de Apucarana, tendo sido transferida posteriormente para o bosque.
Últimas em Apucarana 82 anos
Mais lidas no TNOnline
Últimas do TNOnline