Ângelo Franco Perez: o escultor que moldou a identidade urbana de Apucarana
Formado pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, Ângelo marcou a paisagem urbana de Apucarana com obras que vão da catedral às praças centrais
Receba notícias no seu Whatsapp Participe dos grupos do TNOnline
Quem caminha por Apucarana (PR) talvez não perceba, mas está cercado por obras de um mesmo artista, Ângelo Franco Perez. No alto da catedral e nas praças centrais, as esculturas que atravessaram décadas ajudam a construir a identidade visual da cidade. Natural de São Paulo, Ângelo chegou ao município em 1956 e deixou um legado que permanece vivo no cotidiano urbano.
LEIA MAIS: Bosque Municipal, uma história de mais de 60 anos
Formado pelo tradicional Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, Ângelo teve como mestre o escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, um dos nomes centrais do modernismo no Brasil. Entre as suas obras mais conhecidas em Apucarana está a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que se tornou um dos símbolos da catedral e um marco visual da cidade. Também são de sua autoria as esculturas da Praça Mauá e da antiga estação ferroviária, espaços emblemáticos da memória apucaranense. Nos locais, destacam-se o chafariz também em homenagem à Nossa Senhora de Lourdes, o globo terrestre do Monumento às Bandeiras e a estátua do Visconde de Mauá. Sua assinatura ainda está presente nas paredes externas da Biblioteca Municipal, sediada na Praça 28 de Janeiro.
Além de escultor, Ângelo também foi professor de Educação Artística e formador de artistas. Durante 17 anos, atuou no Colégio Estadual Agrícola Manoel Ribas e no Colégio Estadual Nilo Cairo, influenciando gerações de estudantes. Também fundou na cidade o Liceu de Artes e Ofícios, onde ministrava aulas de pintura e escultura. Ângelo morreu em 1992, em São Paulo.
A santa que desafiou a altura: Nossa Senhora de Lourdes
Elevada à Basílica pelo Papa Francisco em 2024, a Catedral Diocesana de Apucarana é a única do Brasil dedicada a Nossa Senhora de Lourdes e também a ter a padroeira dos enfermos no topo da sua torre principal.
No entanto, a presença da imagem da santa no ponto mais alto da catedral não estava prevista no projeto original. De acordo com o padre José Roberto Rezende, curador e fundador do Memorial Histórico da Diocese de Apucarana, a proposta inicial previa a instalação de uma imagem de São Miguel Arcanjo. “No entanto, durante a execução da obra, decidiu-se pela imagem da padroeira da cidade”, relatou.
A missão foi então assumida pelo artista plástico Ângelo Franco Perez. O desafio, porém, parecia intransponível. Engenheiros chegaram a afirmar que seria impossível elevar uma escultura daquela dimensão até o topo da torre e, mais ainda, garantir sua sustentação ao longo do tempo.
Ângelo, no entanto, contrariou todas as previsões. Confeccionou a imagem em partes dentro da própria catedral ainda em construção e, ao concluir o trabalho, projetou e construiu um elevador improvisado. Foi com esse mecanismo artesanal que ele “alçou os blocos montando a imagem onde até hoje se encontra, no topo da torre. Isto no ano de 1960”, afirmou o padre.
Um Cristo desaparecido
Além da escultura de Nossa Senhora de Lourdes, que desafiou a engenharia da época, uma outra obra de Ângelo Franco Perez causou muita polêmica e até hoje faz parte do imaginário de muitos apucaranenses: a escultura do Cristo Crucificado.
A obra, idealizada pelo então padre Armando Círio, pároco da cidade, também foi inaugurada no ano de 1960, durante a Semana Santa. Carminda de Jesus Perez disse, em entrevista concedida ao Jornal Tribuna do Norte, em 28 de janeiro de 1994, que a escultura era uma reprodução de como seu marido, Ângelo, via Cristo, “um homem que traduzia na fortaleza dos músculos, o amor, a caridade e a vida em abundância”.
No entanto, a imagem ficou exposta por pouco tempo no presbitério da catedral, tendo sido retirada na segunda metade da década de 60, cedendo lugar à atual pintura. Ainda de acordo com ela, a ordem foi dada pelo Bispo Dom Romeu Alberti [morto em 1988], “sob o argumento de que o mesmo era muito gordo e, portanto, não o aceitava”. Até hoje, o paradeiro da obra ainda é desconhecido.
Praça Mauá e Estação Ferroviária
A Estação Ferroviária e a Praça Mauá, na Avenida Governador Roberto da Silveira, reúnem um dos mais importantes conjuntos de esculturas de Ângelo Franco Perez em Apucarana. As obras dialogam diretamente com o período de expansão econômica do município, impulsionado pelo café e pela chegada da ferrovia, e ajudam a contar a história da cidade por meio da arte pública.
Inaugurada em 1958, a praça homenageia Irineu Evangelista de Sousa, o Barão e Visconde de Mauá, empresário que teve papel central no desenvolvimento industrial do Brasil no século XIX. O espaço integra o complexo histórico da Estação Ferroviária, região onde Apucarana começou a se estruturar a partir da chegada do primeiro trem, em 19 de abril de 1943.
A principal escultura da praça é a estátua do Visconde de Mauá, assinada por Ângelo. A obra presta tributo ao pioneiro da industrialização brasileira, responsável, entre outras realizações, pela construção da primeira ferrovia do país, a Estrada de Ferro Mauá, no Rio de Janeiro. A presença da estátua reforça a ligação simbólica entre o homenageado e o espaço ferroviário.
Outro destaque é o Monumento às Bandeiras, inaugurado em setembro de 1958. A obra reproduz um globo terrestre e conta com dispositivos que abrigavam as bandeiras dos estados brasileiros, representando a integração nacional.
Também integra o conjunto de esculturas, o chafariz em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes. Instalado em um ponto estratégico da praça, o monumento era um dos primeiros contatos dos viajantes que chegavam de trem à cidade com a padroeira de Apucarana.
Além disso, outra obra do artista chama atenção pela função prática: um bebedouro para cavalos. No período em que charretes e carroças eram os principais meios de transporte até a estação, o local servia para que os animais descansassem e se hidratassem após as jornadas de trabalho.
Biblioteca Municipal
As paredes da Biblioteca Pública Municipal de Apucarana é mais um dos locais que guardam os trabalhos artísticos de Ângelo Franco Perez. Em esculturas em relevo, o profissional transformou o espaço em um ponto de encontro entre literatura e artes visuais, com cenas inspiradas em clássicos da literatura infantil mundial como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela.
Criada em 26 de maio de 1962, a Biblioteca Pública Municipal de Apucarana foi instalada oficialmente em 2 de dezembro de 1968, após convênio com o Instituto Nacional do Livro, que garantiu a doação inicial de 800 volumes. Na época, recebeu o nome de Biblioteca Municipal Monteiro Lobato. Em 1999, passou a se chamar Biblioteca Municipal Professora Olga Antunes Pedroso, em homenagem a uma educadora de destaque no município.
Últimas em Apucarana 82 anos
Mais lidas no TNOnline
Últimas do TNOnline