Blog do Guilherme Bomba

Falta: o fato de não estar ou deveria estar, ausência

Que 2022 possamos ser mais humanos e ver a miséria que nos rodeia. Que a desigualdade seja tão inquietante a ponto de nos fazer olhar além de nossas dificuldades

Da Redação ·
Imagem ilustrativa da notícia Falta: o fato de não estar ou deveria estar, ausência
fonte: Pixabay\ ilustração

Em alguns dias deixaremos 2021 e isso pode significar muitas coisas, que aqui tentarei abordar de forma simples e direta – ou não. A primeira coisa é lembrar que concluímos mais um ano de incertezas por causa do Covid-19, foram quase dois anos de altos e baixos, receios e esperanças, morte e vida, fé e desalento, ainda sim, estamos aqui para poder escrever e ler essas linhas tortas que não expressam sequer a metade de nossas emoções.

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Temo a visão de que foram anos de aprendizado. Eu sei que pode parecer poético, mas beleza demais em meio ao caos, pode soar minimizante, ainda que eu a use – com parcimônia. Foram milhares de vidas perdidas pelo descaso ou pela insensatez. Foram meses de ansiedade e medo até que as vacinas começassem a surgir e, tantos outros até que pudéssemos ter acesso a elas. Foram milhões de empregos perdidos, não acho que apenas pelo “fique em casa”, mas pela falta de organização de uma sociedade individualista que não estava preparada para uma doença que colocasse ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, crianças e idosos, toda e qualquer dicotomia em um só dilema: a sobrevivência e autopreservação. Nesta hora, não importava quanto havia no banco, de quem era amigo, seu sobrenome ou a cor da sua pele, morremos todos da mesma forma.

Independente de todos os traumas e desafios aqui chegamos. Outro réveillon se apresenta e com ele todos os anseios e desejos de um ano melhor. Mas o ano nunca será melhor, ele é sempre só mais um número, afinal, o que muda somos nós. O que poderia tornar 2022 um ano diferente para todos nós? O que você deseja que seja diferente em seu 2022 que faltou neste ano que chega ao seu fim?

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Existe uma frase que sempre mexeu muito comigo: “se você pedir paciência a Deus, acha que ele vai te tornar uma pessoa paciente ou vai te dar a oportunidade de ser paciente?”. Ela mexe comigo pois, tudo aquilo que pedimos em nossas orações ou mandingas da noite de réveillon tem duplo efeito, pois é uma expressão de nossas angústias e do que nos falta, ao mesmo tempo em que apresenta a vontade de sermos melhores. Mas lembre-se, toda mudança exige um sacrifício, afinal, a lagarta não vira borboleta sem antes romper o casulo que a protege. Romper o casulo é também deixar um local seguro e protegido para alcançar o céu, ainda que a vida da borboleta seja de horas ou poucos dias ela é impelida a evoluir.

“Deixar a zona de conforto” já é outra coisa, esse sim um discurso de coach clássico, que não é o meu caso Professor Bruno Augusto. Zona de conforto é um termo usado para a acomodação, o que nem sempre representa de fato conforto, afinal quem se sente confortável hoje não precisa “sair” de lugar nenhum, o restante de nós vive uma luta constante – seja pelo autoconhecimento ou pelo sustento -. Entretanto, toda mudança é necessária e bem vinda.

 Em 2021 eu pude reconhecer uma coisa ao menos, eu sou importante. Tudo bem que isso pode soar arrogante, mas se não o fizermos ninguém mais o fará, ainda que não seja da forma como o lemos normalmente. Descobri que sou importante aos meus filhos, que puderam demonstrar cotidianamente a necessidade de minha presença. Assim como minha esposa e pais, irmãs, cunhados, sobrinhos e tias. Celebramos a vida e presença, pois só damos o real valor quando a ausência é uma possibilidade. Digo que é porque somos uma família italiana, mas isso é chega a ser blasfêmia, pois somos tão miscigenados quanto possível, entretanto, o discurso trata da forma aberta e explicita das demonstrações de carinho, que independente de qualquer cerimônia, são declaradas e cobertas por lágrimas mesmo que em uma festa de aniversário. Tenho certeza que se hoje eu me fosse, todos saberiam o quanto eu os amo, pois já disse todas as vezes que foram possíveis.

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Eu sei que falar em “me for” em um texto de fim de ano pode ser estranho, mas reforço que devemos viver a vida intensamente, mas com uma certeza, ela também acaba. Independente das suas crenças religiosas, e eu tenho as minhas, sabemos que o fim é inevitável. Mas isso pode não ser uma coisa ruim, se soubermos aproveitar essa informação privilegiada. Se você sabe que vai morrer – pode ser daqui 5 ou 50 anos -, o que você tem feito para ser lembrado?

Sempre digo aos meus alunos, de quantos antepassados você é capaz de lembrar e nominar? Está tudo bem não lembrar todos os seus 16 tataravôs, mas é imprescindível que seus avôs e bisavôs – ao menos alguns – estejam contemplados. Em nossa vida, conhecemos milhares de pessoas, e de nenhuma forma estou tratando das relações online, afinal isso é tão etéreo quanto o ar que se esvai do balão furado.

Ao longo desses anos como professor tive milhares de alunos, sei que a maioria talvez não se lembre das minhas aulas ou mesmo de mim, mas para alguns tenho certeza – afinal muitos me lembram disso quando os vejo – que de alguma forma eu pude cativá-los. O mesmo aconteceu comigo, seja com meus alunos e alunas, seja com meus professores e, esses sim, são inesquecíveis. Mas para além de minha bolha profissional, somos tocados todos os dias por pessoas desconhecidas, talvez apenas com um bom dia quando o dia não está tão bom assim.

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A pressa da vida moderna nos leva a falta, a ausência do contato humano real, sem pressa e sem telas. Uma pessoa realmente religiosa não se apresenta na hora da missa ou do culto, afinal ali é o local adequado e projetado para que sejamos assim. A verdadeira religião, independente de qual seja – ou até mesmo a ausência dela, pois não ela que define o caráter -, se apresenta no momento oportuno. Na fila do supermercado lotado, no olhar de compaixão ao morador em situação de rua e aos que passam fome, no trato com os funcionários de uma empresa, com o amigo em situação de desespero e melancolia e, tantas outras situações que nos cobra uma atitude, nem que seja apenas a de ouvir e olhar nos olhos do outro.

Se no dia 31 de dezembro for pedir alguma coisa que lhe falta, que seja pelo motivo certo e que haja energia suficiente para conquistá-lo. Você pode querer um carro melhor, mas será que isso lhe falta?  Não há nenhum problema querer mais coisas, mas o que elas contribuirão de fato em nossas vidas. As propagandas de automóveis sempre são assertivas, afinal não tratam apenas da qualidade de seus produtos, mas de viagens e de aventuras off-road, normalmente acompanhados. Digo isso, pois muitas vezes buscamos nos objetos a sensação do que é imaterial.

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Sei que pode parecer contrário ao nosso modo de vida, pois o consumo faz parte do que somos educados a pensar, mas devemos lembrar que nenhum smartphone substituirá uma conversa com aqueles que amamos. A tecnologia pode aproximar o que está longe, mas ao mesmo tempo pode afastar quem está perto.

Se você sente a necessidade de começar o ano com uma nova rotina de exercícios e uma vida fitness, que seja também pelo motivo certo. A beleza sempre será um conceito relativo, temporal e substituível. Lutar contra o tempo ou viver a ilusão do corpo e beleza das redes sociais é adiar o inevitável. Mas se o objetivo é se sentir mais disposto e bem consigo mesmo, por seus próprios padrões e objetivos está tudo bem. O mapa de sua vida deve ser apenas os seus próprios caminhos.

Em 2022 guarde dinheiro ou gaste tudo em comida. Compre uma casa ou faça a viagem dos sonhos. Cresça em seu emprego ou mude de profissão. De qualquer forma a vida é muito curta para não ser vivida intensa e verdadeiramente. Se deixarmos a felicidade para depois da faculdade, do casamento, dos filhos crescidos ou qualquer outro marco inventado, sempre será amanhã e nunca hoje. Seja feliz hoje. Comece 2022 com a energia da mudança, de uma nova oportunidade, de um novo começo, mas não esqueça do que você já tem, do que você já é.

Eu sei que pode parecer um discurso de resignação, mas é o contrário, é de valorização de quem já somos. Existem muitas pessoas que sonham com o carro velho que você já tem, com a casa pequena que o abriga, com o tênis surrado, com a comida “simples” do cotidiano. Antes de pedir por algo novo, agradeça o que você já tem, em tempos como o nosso, de alguma forma, todos somos privilegiados.

Que 2022 possamos ser mais humanos e ver a miséria que nos rodeia. Que a desigualdade seja tão inquietante a ponto de nos fazer olhar além de nossas dificuldades. Que possamos perceber que há pessoas que lutam por direitos – inclusive o de existir – em nosso país que ainda se apresenta racista, homofóbico, machista, classicista e elitista. Que sejamos nós a mudança que esperamos do mundo. Não peço muito a 2022, a não ser a saúde daqueles que amo e que eu possa ser cada vez melhor em tudo que eu faça, que eu possa ser um ser humano melhor.

Para fechar com o título, a falta talvez seja só uma percepção errônea da própria realidade. Existem coisas que de fato fazem falta e não temos como lutar, mas para isso bastar honrarmos os que morreram, fazendo da oportunidade de viver a chance de sermos inteiros – onde não falta nada. De resto é desejo.       

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